Quando a política pública toca a sua pele

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Por Juan EspinozaMídia NINJA

11 de setembro de 2026

Quando a política pública toca a sua pele

Uma madrugada, uma teleconsulta e uma médica do outro lado de uma tela me lembraram que, por trás das grandes políticas públicas, existem gestos concretos de cuidado

Juan Espinoza

Comunicador e gestor cultural. Productor de conteúdos: textos e fotografia. Articulador frente internacional da Floresta Ativista e Casa Ninja Amazônia.

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Juan Espinoza

11 de setembro de 2026

15:58

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Juan Espinoza

Comunicador e gestor cultural. Productor de conteúdos: textos e fotografia. Articulador frente internacional da Floresta Ativista e Casa Ninja Amazônia.

Há palavras que, de tanto serem repetidas, podem perder um pouco de sua dimensão. Direito. Estado. Saúde pública. Sistema Universal. Políticas públicas. São palavras importantes, mas também abstratas.

Até que, em alguma madrugada, o corpo nos lembra que, por trás delas, deveria existir algo muito concreto: alguém que atenda, que escute, que oriente, que cuide.

Desta vez, foi uma dor nas costas. Há meses ela me acompanhava, mas, nos últimos dias, havia se tornado mais intensa e começava a irradiar para uma perna. Já não parecia razoável continuar esperando.

A consulta presencial com o médico de família ainda estava pendente. Procurar diretamente um especialista na medicina privada significava, como tantas vezes acontece, colocar um preço na possibilidade de ser atendido.

Então surgiu outra possibilidade, dentro da própria rede pública.

Por meio de uma plataforma digital do Sistema Único de Saúde (SUS), pude acessar uma teleconsulta. A informação dizia que o atendimento poderia acontecer em um prazo de até duas horas.

Era madrugada.

E a ligação chegou.

Do outro lado da tela havia uma médica. Não houve nada de espetacular naquela cena. Nenhuma tecnologia futurista, nenhuma demonstração extraordinária de inovação. Houve algo muito mais simples e, talvez por isso mesmo, muito mais importante: perguntas, escuta, atenção e orientação.

A médica quis saber o que estava acontecendo. Ouviu os sintomas. Indicou os próximos passos e encaminhou a situação para uma consulta especializada. Também orientou sobre a possibilidade de retirar o medicamento indicado no posto de saúde do bairro.

A consulta terminou. A dor continuava ali, mas alguma coisa havia mudado.

Eu já não era apenas uma pessoa tentando resolver sozinha um problema de saúde. Havia uma rede. E essa diferença pode parecer pequena até o momento em que precisamos dela.

Uma rede por trás de uma ligação

Depois daquela madrugada, fiquei pensando em tudo o que existe por trás de uma ligação que dura apenas alguns minutos.

Para que uma médica possa atender uma pessoa por meio de uma tela, é preciso que existam profissionais, unidades de saúde, sistemas de registro, mecanismos de encaminhamento, serviços especializados, medicamentos e uma estrutura capaz de conectar diferentes pontos de atendimento.

Por trás daquela conversa havia uma política pública construída ao longo de décadas. E havia também muito trabalho.

O SUS está longe de ser perfeito. Em uma cidade do tamanho de São Paulo, as dimensões da demanda produzem esperas, dificuldades de acesso a determinadas especialidades, desigualdades territoriais, problemas de infraestrutura e situações em que o sistema não responde com a rapidez de que as pessoas precisam.

É legítimo apontar essas deficiências. Um sistema público de saúde precisa ser permanentemente avaliado, financiado, corrigido e aperfeiçoado.

Mas também existe um risco quando a discussão sobre seus problemas acaba ocultando aquilo que o sistema consegue fazer.

O SUS atende todos os dias pessoas para quem a capacidade de pagar não pode ser a condição para ter acesso à saúde.

Isso se entende de uma maneira diferente quando estamos do outro lado da tela, esperando que alguém atenda.

Quando a saúde deixa de ser uma ideia

A saúde é um direito. É uma necessidade básica. E é também uma das responsabilidades mais importantes que um Estado pode assumir.

Mas nenhuma dessas afirmações tem verdadeiro significado se não conseguir se materializar na vida cotidiana. Como costumo dizer muitas vezes: se não toca a pele.

Um direito se torna concreto quando uma vacina está disponível. Quando um hospital recebe alguém em uma emergência. Quando um medicamento pode ser retirado em um posto de saúde. Quando uma enfermeira cuida. Quando um médico escuta. Quando uma pessoa pode ser atendida mesmo sem ter dinheiro para pagar uma consulta particular.

Ou quando, no meio da madrugada, uma ligação conecta quem precisa de ajuda a uma profissional preparada para ouvir.

Talvez seja aí que as políticas públicas revelem seu verdadeiro sentido: quando deixam de ser estatísticas e se transformam em experiências humanas. Quando o valor do coletivo deixa de ser uma ideia e ganha um rosto.

Uma memória pessoal da saúde pública

Talvez por isso, nesta madrugada, também tenham despertado em mim lembranças de outros encontros com sistemas públicos de saúde.

Em 2004, em Havana, uma experiência hospitalar me permitiu conhecer, viver e agradecer pessoalmente a formidável atenção médica cubana, que, apesar de viver sob um cruel e injusto bloqueio, é valorizada e reconhecida em todo o mundo.

Anos depois, durante a pandemia de COVID-19, uma internação de quinze dias no Hospital El Alto Sur, na Bolívia, voltou a tornar visível o papel que uma estrutura pública pode desempenhar quando a doença deixa de ser uma preocupação abstrata e se transforma em uma ameaça concreta.

São experiências diferentes, ocorridas em lugares e momentos diferentes. Mas deixaram uma impressão comum: quando a saúde pública funciona, sua importância se torna profundamente pessoal.

Não importa apenas quantos hospitais existem ou quantas consultas são realizadas. Importa saber que, quando chegar o momento, existe um lugar ao qual recorrer.

E talvez isso seja algo que compreendemos cada vez melhor com o passar do tempo: ninguém está completamente protegido de precisar, algum dia, daquilo que uma política pública promete garantir.

O cuidado como decisão coletiva

Há uma pergunta que costuma aparecer quando se fala de serviços públicos: quanto eles custam?

É uma pergunta legítima. Mas talvez exista outra que deveria acompanhá-la: que sociedade queremos construir com os recursos que temos?

Porque a saúde pública não é apenas uma forma de organizar serviços médicos. Ela também expressa uma decisão coletiva e política sobre o valor que atribuímos à vida.

Em um sistema baseado exclusivamente na capacidade de pagamento, a doença pode rapidamente se transformar em uma conta. Em um sistema público, a doença deveria ativar, antes de tudo, uma responsabilidade humana.

Isso não elimina as dificuldades. Não resolve as filas de espera. Não garante que todos recebam atendimento imediatamente. Não transforma o SUS em um sistema perfeito.

Mas estabelece um princípio fundamental: ninguém deveria ficar completamente sozinho diante da doença porque não pode pagar.

Uma ligação no meio da noite

A madrugada terminou. Ficaram as orientações da médica, a expectativa da consulta especializada e a possibilidade de retirar o medicamento no posto de saúde.

E ficou também uma sensação difícil de traduzir em estatísticas.

Gratidão.

Não apenas por ter encontrado uma orientação para uma dor que vinha me acompanhando havia meses. Também por ter comprovado, mais uma vez, que, por trás da expressão “saúde pública”, existem pessoas.

Uma médica que atende de madrugada.

Um trabalhador que mantém uma plataforma funcionando.

Um posto de saúde que disponibiliza um medicamento.

Um sistema que conecta uma consulta a outra.

Uma rede que continua ali.

É fácil esquecer essas coisas quando os serviços públicos funcionam silenciosamente. Elas não aparecem necessariamente nas notícias. Não produzem grandes manchetes.

Mas estão ali.

E talvez seja justamente nesses pequenos momentos que um direito adquira sua dimensão mais profunda.

Uma consulta.

Um hospital.

Uma vacina.

Um medicamento.

Uma enfermeira.

Um médico.

Uma tela iluminada no meio da madrugada.

E, do outro lado, alguém dizendo: vamos ver o que está acontecendo e o que podemos fazer.

A saúde pública também é construída com essa soma de gestos.

Por isso, defendê-la não significa negar seus problemas. Significa reconhecê-los e exigir que seja melhor, mais acessível, mais eficiente e mais humana.

Porque um sistema público de saúde não deveria ser avaliado apenas por seus resultados numéricos, mas também por aquilo que acontece quando uma pessoa precisa de ajuda e descobre que não está sozinha.

Naquela madrugada, o SUS não resolveu todos os problemas da saúde.

Fez algo muito mais simples.

Atendeu uma pessoa.

E, por um momento, uma ideia que tantas vezes aparece nos discursos — a de que a saúde é um direito — deixou de ser apenas uma frase.

Tornou-se realidade.

Fonte: Mídia NINJA

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