11 de setembro, Santiago.
Por fernandaestima — Fundação Perseu Abramo
Cinco dias depois de bombardear o Palácio de La Moneda, matar o Presidente, Salvador Allende, legitimamente eleito pelo povo chileno, os fascistas liderados por Augusto Pinochet, a serviço dos Estados Unidos, mantinham Santiago submetida ao terror dos Carabineiros. Arrastões, sequestros, fuzilamentos. Embaixadas cercadas. Medo disseminado por toda parte. Tudo em nome da democracia.
Naquela data, 16 de setembro de 1973, o poeta Victor Jara, preso desde o dia 12 e conduzido ao Estádio Chile foi o alvo emblemático da selvageria dos verdugos. A juventude do Chile, as mulheres do Chile, os trabalhadores do Chile cantavam suas canções na Peña de los Parra, nas ruas, nas alamedas, nas mobilizações em defesa do governo da Unidade Popular. Sabiam de cor suas canções. Para seus carrascos era algo imperdoável.
Depois de ter as mãos partidas a coronhadas, recebeu 44 disparos no corpo, lançado ao anoitecer numa rua empoeirada, à beira de um riacho da saída sul de Santiago.
A pergunta que fica é: por que tamanha ferocidade?
Por muito tempo busquei uma resposta. Em 1976, quando já cumpria o quarto ano de cárcere, pus no papel, em letra miúda, esse
CANTO PARA AS MÃOS PARTIDAS DE VICTOR JARA
Quisera chorar teus dedos dilacerados:
Raízes do meu canto subterrâneo.
Quisera chamar-te “Hermano”
Como a infância dos rios
Lava o rosto da terra,
Mas minha boca sangrava
Um silêncio de canções amordaçadas.
De tuas mãos se dirá um dia:
Geravam pássaros de sangue
Como as primaveras da lua.
Tuas mãos,
tristes descendentes de canções araucanas.
Tuas mãos mortas,
Casa de canções decepadas,
Tuas mãos rotas,
Últimas filhas do vento,
Guitarras enterradas sem canto,
Sementes de fuzis,
Seara de sangue.
Quisera entregar
Minhas mãos inúteis
Ao cepo dos teus carrascos.
(2 de maio de 1976)
Não se trata evidentemente de uma resposta à indagação: por que tamanha ferocidade? Que propus acima. Reflete em versos, a partir do espaço restrito e restritivo de uma prisão distante, no mesmo continente atormentado, o impacto sentido diante da desmesurada brutalidade da força desatada de quaisquer amarras que emerge com a ascensão do fascismo, em qualquer tempo e em qualquer latitude.
Uma semana mais tarde, precisamente no 23 de setembro, o Chile – e o mundo – receberiam inconformados a notícia da morte de Pablo Neruda, poeta, Prêmio Nobel de Literatura, vítima de um câncer terminal, segundo os porta-vozes do regime. No meio da tormenta, a sociedade chilena desafiou o ditador e foi às ruas para o cortejo que sepultou em silêncio um dos maiores poetas do século 20, antes de completar 70 anos.
Cinquenta anos depois caiu por terra a versão oficial da morte do poeta: Neruda foi envenenado com uma injeção de Clostridium botulinum, na Clínica Santa Marta.Ancorada em pareceres de legistas de diferentes países do mundo, a denúncia foi divulgada por Rodolfo Reyes, sobrinho do poeta e advogado da família.
Desde Marinetti e os futuristas do início do século 20, o fascismo estetiza a violência, a guerra, a morte. Elabora conceitualmente e defende a beleza da força, da imposição viril do homem sobre tudo que o cerca. Estabelece e naturaliza a violência como uma segunda natureza, inseparável das relações humanas. Numa sociedade colonial, patriarcal e escravocrata, essa constatação nos ajuda a compreender melhor os fenômenos do racismo estrutural, do machismo e seu derivado, o feminicídio que hoje nos assombra. O neofascismo contemporâneo recolhe esse legado para se nutrir. Essa espécie de “Arquitetura da destruição”, como elemento cultural chave para a ruptura da ordem democrática liberal.
A estratégia imperial dos Estados Unidos para prolongar seu domínio colonial sobre o continente, durante os anos da guerra fria, operou de fora para dentro, por meio de golpes de estado, em geral conduzidos pelas forças armadas. Hoje, essa estratégia foi substituída por um complexo de ações que vão muito além da imposição dos seus interesses pela força física. Pelos sequestros, torturas e desaparecimentos forçados conduzidos pela Operação Condor.
O que está em curso é um processo de dentro para fora. Uma contrarrevolução cultural impulsionada pelas tecnologias digitais, cujo objetivo é a infantilização das sociedades, a negação permanente da informação, “a morte da verdade”, a redução da capacidade de pensar promovida pela indústria da atenção, para impedir qualquer veleidade de autonomia e independência, de qualquer país do continente.
O modelo Pinochet tornou-se obsoleto. Experimentam o modelo Katz. O modelo dos generais brasileiros faliu. Experimentam o modelo Bolsonaro: rebaixar o Brasil ao nível de Rio das Pedras. Rebaixar as instituições ao nível das milícias que controlam os territórios em muitos centros urbanos e se infiltram nas próprias instituições do país.
Volto aos idos de 1973 para recuperar uma noção básica da resistência a todas as tiranias: sem resistência cultural não vinga um projeto de resistência política a qualquer dominação colonial. Talvez tenhamos aqui uma chave para compreender o ódio cego dos fascistas aos poetas, como Pablo Neruda e Victor Jara. E possamos dizer: “A poesia nunca foi um instrumento apreciado para derrubar governos, mas não há tirania que não a tema”.
Pedro Tierra é poeta. Militou na resistência à ditadura e ao fascismo contemporâneo. Ex-presidente da Fundação Perseu Abramo.
Fonte: Fundação Perseu Abramo