Nebulosa Marginal abre congresso em São Paulo com debate sobre mulheres, violência e os apagamentos da psicanálise
Por Sara York — Brasil 247
A história da psicanálise também é uma história de disputas por memória, reconhecimento e poder. Foi a partir dessa perspectiva que teve início, em São Paulo, o Fala Nebulosa Marginal 2026, encontro que reúne psicanálise, cultura e pensamento crítico para discutir as questões que atravessam a clínica e a sociedade contemporânea.
Na apresentação do primeiro dia, estive à frente da condução de toda a programação, da abertura ao encerramento. O encontro começou com um pocket show da cantora Patricia Marx, seguido por uma mesa dedicada à Policlínica Maria Lúcia e às experiências construídas em torno do trabalho do Instituto Nebulosa Marginal, potencializado também pela participação de integrantes da própria instituição.
A abertura foi conduzida por Renata Udler Cromberg, psicanalista do Instituto Sedes Sapientiae, cuja produção intelectual esteve entre as referências centrais das discussões do dia.
Mais do que recuperar uma história, o encontro propôs uma pergunta incômoda: o que acontece quando olhamos para a história da psicanálise procurando justamente aquelas mulheres que foram deixadas fora dela?
Gisèle Pelicot e a inversão do lugar da vergonha
Um dos debates mobilizados durante a mesa de abertura foi o caso de Gisèle Pelicot, que se tornou uma referência mundial no enfrentamento à violência sexual ao decidir tornar público o julgamento dos homens acusados de violentá-la enquanto ela estava inconsciente.
Sua decisão de não permanecer escondida deslocou o centro da vergonha. Em vez de recair sobre a vítima, a exposição pública passou a interpelar os autores da violência.
A expressão segundo a qual “a vergonha tem que mudar de lado” sintetiza esse deslocamento e permite à psicanálise pensar uma questão que ultrapassa a experiência individual: como a sociedade produz corpos que passam a carregar a marca da violência que sofreram?
A reflexão apresentada por Renata Udler Cromberg aponta justamente para esse movimento de descolar-se do corpo tornado abjeto pela violência. Pelicot não apagou o que aconteceu. Ao contrário, tornou o acontecimento impossível de ser escondido atrás do silêncio da vítima.
É uma mudança importante porque a violência sexual historicamente produz uma inversão perversa: quem sofre a agressão é frequentemente convocada a explicar seu comportamento, sua roupa, sua sexualidade, sua relação com o agressor ou seu silêncio. Enquanto isso, o agressor pode permanecer protegido pela vergonha que deveria ser socialmente atribuída a ele.
As mulheres que a história oficial deixou para trás
O segundo grande eixo do encontro foi o resgate de mulheres fundamentais para a formação do pensamento psicanalítico.
A partir das pesquisas de Renata Udler Cromberg e Fátima Caropreso, foram recuperadas trajetórias como as de Emma Eckstein, Margarete Hilferding, Sabina Spielrein e Hermine Hug-Hellmuth, mulheres que participaram dos primeiros momentos da psicanálise, mas cuja presença foi posteriormente obscurecida por uma historiografia centrada sobretudo em homens.
O problema não é apenas saber quem aparece nos livros. É compreender por que determinadas pessoas são transformadas em autoras fundamentais enquanto outras são reduzidas a personagens secundárias de uma história contada por homens.
Entre essas pioneiras está Emma Eckstein, vinculada aos primeiros círculos psicanalíticos e à produção sobre sexualidade infantil. Margarete Hilferding, por sua vez, participou da Sociedade Psicanalítica de Viena e produziu reflexões pioneiras sobre maternidade e vínculo entre mãe e bebê.
Sabina Spielrein ocupa outro lugar decisivo nesse arquivo. Seu trabalho sobre destruição e transformação psíquica tornou-se posteriormente particularmente relevante para a compreensão das relações entre destruição, criação e mudança.
Recuperar essas mulheres significa, portanto, mexer no próprio arquivo da psicanálise.
O Brasil também precisa recontar sua história
A discussão não ficou restrita à Europa. O encontro recuperou ainda mulheres fundamentais para a constituição da psicanálise brasileira, entre elas Virginia Bicudo, Adelheid Koch, Catarina Kemper e Neusa Santos Souza.
A trajetória de Virginia Bicudo é especialmente significativa por articular psicanálise e relações raciais em um país marcado pelo racismo estrutural. Neusa Santos Souza, posteriormente, aprofundaria a discussão sobre racismo, subjetividade e sofrimento psíquico da população negra.
Essas experiências mostram que a psicanálise brasileira nunca esteve separada das disputas sociais do país. Ao contrário: suas melhores experiências aparecem justamente quando a escuta clínica consegue reconhecer aquilo que a sociedade insiste em transformar em silêncio.
Trauma, sobrevivência e a recusa do ódio
Outro momento importante foi a discussão em torno da trajetória de Edith Eger, psicóloga e sobrevivente de Auschwitz, cuja experiência de trauma atravessou posteriormente seu trabalho clínico.
A presença de Eger no debate introduziu uma questão particularmente delicada: como sobreviver sem permitir que a violência determine integralmente o futuro?
Perdoar, nesse contexto, não significa esquecer ou absolver. Significa, antes, retirar do agressor o direito de continuar ocupando indefinidamente o corpo e a subjetividade de quem sobreviveu.
A discussão aproxima trauma e elaboração e lembra que sobreviver não é simplesmente permanecer vivo, mas reconstruir possibilidades de existência depois daquilo que tentou destruí-las.
Uma erótica do feminino contra a lógica do controle
Ao propor uma passagem da lógica patriarcal e fálica para uma erótica do feminino, Renata Udler Cromberg desloca o debate para além da denúncia.
A questão passa a ser também imaginar outras formas de relação. Se a lógica patriarcal opera pela hierarquia, pelo controle, pela divisão e pela punição, a erótica do feminino pode abrir espaço para redes, conexões, transformação e invenção.
Não se trata de substituir uma estrutura de poder por outra. Trata-se de questionar a própria necessidade de organizar a vida a partir da dominação.
E talvez seja justamente aí que a psicanálise encontre uma de suas tarefas contemporâneas mais importantes: escutar aquilo que as estruturas de poder não querem ouvir.
O primeiro dia do Fala Nebulosa Marginal terminou com um coquetel de encerramento, depois de uma programação que combinou música, psicanálise, memória e crítica social.
A agenda, porém, continua amanhã.
E, se o primeiro dia foi marcado pelo retorno das mulheres que a história oficial deixou nas margens, os próximos encontros terão diante de si uma questão ainda maior: pensar quantas outras vozes ainda permanecem nos arquivos, esperando que alguém se disponha a escutá-las. Hoje seguimos com Virgínia Bicudo, Lélia Gonzalez, Neusa Santos Souza…
Fonte: Brasil 247