Fim do sigilo do Master mantém Mendonça como senhor da República
Por Vinicius Rodrigues Vieira — JOTA
Mesmo com o fim do sigilo sobre o processo relacionado ao Banco Master e à verdadeira máfia criada por Daniel Vorcaro, o ministro André Mendonça segue dando as cartas no que se passará no Supremo Tribunal Federal no próximo dia 15, quando o plenário vai deliberar sobre o envolvimento de membros da Corte no caso. O sigilo, derrubado a pedido do presidente do STF, Edson Fachin, segue válido para casos em que Mendonça considerar necessário para futuras operações policiais.
Com isso, o ministro, indicado no mandato do golpista Jair Bolsonaro (PL) por ser nas palavras do ex-presidente “terrivelmente evangélico”, ainda segue como o árbitro de fato da sucessão presidencial. Como noticia um jornal na manhã desta sexta-feira (11/9) os dados relativos ao caso Dark Horse, o filme sobre Jair financiado por Vorcaro sob pressão do presidenciável e filho do golpista, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ainda estão sob sigilo. Também permanece sob sigilo tudo aquilo relacionado ao senador Jaques Wagner (PT-BA), figura próxima ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que concorre à reeleição.
Nesse cenário, Flávio Bolsonaro tende a consolidar sua ascensão nas pesquisas — e não duvido que ele venha a passar Lula já no primeiro turno —, haja vista a grande animosidade com a qual a população parece estar reagindo aos fatos estarrecedores parcialmente desnudados.
A indignação é claramente seletiva, recaindo apenas sobre um dos lados do espectro político, como se o cansaço com muitos anos de governo do PT — 12 anos apenas do presidente Lula no último quarto do século — fosse potencializado por aquilo que, na narrativa bolsonarista, é uma reação de um sistema corrupto contra o povo.
Nesse processo, o eleitorado, em particular aquele que representa o coração do bolsonarismo — ou seja, o “penta B” formado por supremacistas brancos que, covardes, não expressam às claras o seu racismo; boçais, com seus maus modos e ceticismo acerca da ciência; e o BBB representado por bala, boi e Bíblia —, caminha para fechar não apenas o caixão da Nova República, mas o fim do Brasil dos últimos cem anos.
Desde 1930, governos dos mais diversos matizes — autoritários e democráticos, de direita e esquerda — empenharam-se para construir um verdadeiro Estado, capaz de tornar efetiva a soberania territorial por meio do desenvolvimento econômico e, especificamente no pós-ditadura militar, com o desenvolvimento de capacidades humanas universais na educação e saúde.
Quando, tal como no caso Master, vemos burocratas do Banco Central sendo corrompidos e a Polícia Federal se aliando a ministros do STF numa lógica de guerra de facções, fica fácil dizer que tudo isso que está aí tem de ser desmontado. Soma-se a isso a narrativa da direita — inclusive os poucos nichos ainda independentes do bolsonarismo — segundo a qual mais dinheiro nas mãos das pessoas é melhor do que pagar mais impostos e receber serviços públicos.
É precipitado fazer uma interpretação histórica definitiva, mas arrisco-me a dizer que estamos testemunhando o ponto culminante das Jornadas de Junho de 2013, em que as pessoas, sem uma orientação ideológica clara, inicialmente protestavam contra a ineficiência do que o Estado nos entrega — lembro-me com clareza de cartazes irônicos como os que pediam para “enfiar os 20 centavos” de aumento das passagens urbanas em São Paulo no SUS.
Ora, se nos últimos 13 anos — metade do período em governos de esquerda (Dilma Rousseff e Lula) e a outra sob a direita (Michel Temer e Bolsonaro) — o Estado não foi capaz de entregar melhores serviços ao povo, a solução parece simples: vote-se no candidato com mais intenções de voto do campo que promete um Estado mínimo — tão mínimo que até mesmo a soberania fica posta em risco.
O problema é que esse candidato atende pelo nome de Flávio Nantes Bolsonaro e é filho de alguém que está preso por ter liderado uma tentativa de golpe de Estado e assassinato de opositores políticos. Mas o que é golpismo e ameaça à soberania para quem, no dia a dia, sofre com problemas como a alta dos preços ou até mesmo a violência, em que territórios completos não estão, de fato, sob o comando do Estado?
Eis o paradoxo: uma vida melhor, para cada uma das famílias brasileiras, depende da manutenção da soberania — não há país no mundo que tenha se desenvolvido sendo uma colônia, papel que o bolsonarismo nos reserva caso volte ao poder. Também é muito cedo para fazer interpretações sobre o papel de Mendonça nesse processo de desmanche nacional, mas ousaria dizer que, em meio àquilo que foi a vacina contra o golpismo aplicada diretamente pelo STF, dois vírus acabaram por pavimentar aquilo que já pode se confirmar em 4 de outubro: o retorno de uma coalizão golpista ao poder — agora num ambiente internacional ainda mais propício à autocratização.
Um desses vírus é um velho conhecido: o patrimonialismo, ou seja, usar o Estado para fins privados, como aparentemente foi o caso do ministro Alexandre de Moraes, cuja esposa recebeu milhões de reais para prestar assessoria estratégica junto à PF, e de outros membros da Suprema Corte — Mendonça inclusive — que se relacionaram com Vorcaro, seja diretamente, seja por meio de emissários da máfia Master.
Mas, pior que o patrimonialismo, que tende a ser a reação de elites atrasadas num contexto em que tentamos soberanamente construir um Estado, há o vírus do entreguismo e do golpismo. Ele encontra-se representado no STF por Mendonça, hoje senhor dos nossos destinos.
Tem-se proliferado, por parte da campanha de Flávio Bolsonaro, a seguinte questão: você gostaria de ter mais ministros como Mendonça ou como Moraes no STF? Se o próximo presidente indicar até seis ministros, teremos uma Suprema Corte aparentemente imune ao velho patrimonialismo, mas que não mais poderá ser chamado de Supremo, porque, nesse cenário, nossa soberania não mais existirá, haja vista a subserviência do bolsonarismo aos Estados Unidos. Bye bye Brazil!
Fonte: JOTA