Por que Marx aparece em um livro sobre moda?
Por Iara Vidal — Brasil 247
Por Iara Vidal – Karl Marx (1818–1883), autor de O Capital, um dos principais formuladores da crítica ao capitalismo e pesadelo recorrente dos liberais, aparece no meu livro por uma razão bastante simples: eu não consigo falar seriamente sobre moda sem falar de capitalismo.
Marx também é protagonista de 11 em cada 10 espantalhos anticomunistas produzidos por gente que, muitas vezes, nunca se deu ao trabalho de ler uma página de sua obra. Então vale começar pelo básico: não estou recorrendo a ele para transformar cada vestido, sapato ou camiseta em uma tese marxista. Estou recorrendo a uma ferramenta de análise que considero poderosa para compreender o mundo em que vivemos.
Uma das coisas que o marxismo me ensinou foi justamente a olhar para uma mercadoria e perguntar o que existe por trás dela. E a roupa é uma mercadoria extraordinária para fazer esse exercício.
O que a etiqueta não mostra
Quando compro uma camiseta, estou comprando um objeto. Mas, antes de chegar até mim, aquela camiseta passou por uma cadeia enorme de produção. Alguém plantou a fibra, alguém a transformou em fio, alguém produziu o tecido, alguém cortou, alguém costurou, alguém transportou e alguém vendeu.
A etiqueta mostra a marca. Marx me ajuda a procurar aquilo que a etiqueta não mostra.
Quem trabalhou para produzir aquela peça? Em que condições? Quanto recebeu? Quem ficou com a maior parte do valor produzido? E como um pedaço de tecido, depois de atravessar toda essa cadeia, chega até nós carregado de significados como status, beleza, pertencimento, rebeldia, sensualidade ou luxo?
É aí que entra uma das ideias mais poderosas de Marx para pensar a moda: o fetichismo da mercadoria. Em O Capital, Marx mostra como o valor de um objeto pode parecer algo que pertence naturalmente a ele, enquanto o trabalho humano e as relações sociais que o produziram ficam escondidos. A mercadoria chega até nós pronta, bonita, fotografada, embalada e desejável. A fábrica e o trabalhador desaparecem de cena.
No mercado de luxo, esse mecanismo pode ser ainda mais evidente. A marca encobre a fábrica, o signo encobre a técnica e o prestígio encobre o trabalho. Uma bolsa deixa de ser apenas couro, costura, ferragens e horas de trabalho para condensar exclusividade, distinção, pertencimento e poder.
Quando a moda começa a vender desejo
A moda percebeu cedo que não precisava vender apenas roupas. Podia vender juventude, elegância, rebeldia, status, sensualidade, liberdade e, sobretudo, desejo. A gente compra uma camiseta, mas pode estar comprando também uma imagem de quem gostaria de ser — ou de como gostaria de ser visto.
É aí que a moda se encaixa tão bem no capitalismo. O que ontem era moderno hoje parece velho; o que está na vitrine agora pode estar na liquidação amanhã. A novidade alimenta o desejo, o desejo alimenta o consumo e a roda continua girando.
No livro, recupero também Werner Sombart (1863–1941), que pensou a moda como uma engrenagem importante dessa dinâmica. E aqui cabe uma ressalva necessária: Sombart começou influenciado pelo marxismo, mas depois caminhou para posições nacionalistas e conservadoras e, no fim da vida, aproximou-se do nazismo e apoiou o regime de Hitler. Essa virada mancha sua trajetória e exige uma leitura crítica de sua obra.
Ainda assim, algumas de suas reflexões sobre capitalismo e consumo ajudam a entender por que a moda funciona tão bem como motor de desejo. Para Sombart, ela explora duas vontades que parecem opostas, mas andam juntas: ser diferente e pertencer. Valoriza o efêmero, transforma a novidade em necessidade e faz com que aquilo que compramos hoje possa parecer velho amanhã.
No fim, a moda não movimenta o mercado apenas vendendo roupas. Ela vende vontades — e cuida para que elas nunca se satisfaçam por completo.
Quem aparece e quem desaparece
Mas existe uma contradição ainda mais profunda — e mais cruel. Enquanto a moda produz visibilidade, ela também produz invisibilidade.
A modelo aparece, a celebridade aparece, a marca aparece, o estilista aparece. A trabalhadora que costurou aquela roupa, quase nunca. Por trás dos desfiles, das vitrines, das campanhas e dos feeds existem milhões de pessoas trabalhando. Historicamente, muitas delas foram — e continuam sendo — mulheres, crianças, migrantes e populações racializadas submetidas a jornadas exaustivas, baixos salários e condições precárias.
A indústria têxtil esteve no coração da Revolução Industrial, e a exploração do trabalho esteve no coração da indústria têxtil. É impossível contar uma história sem contar a outra.
Friedrich Engels (1820–1895) ajuda a enxergar esse avesso da elegância. Enquanto as elites exibiam roupas como símbolo de posição social, trabalhadores produziam essas mesmas mercadorias em condições miseráveis. O luxo de uns podia ser sustentado pela miséria de outros.
A exploração também tem gênero, raça e classe
E essa história também tem gênero. As mulheres não aparecem na história da moda apenas como consumidoras obcecadas por vestidos, sapatos e bolsas — outra caricatura bastante conveniente. Elas aparecem, sobretudo, como trabalhadoras: fiandeiras, costureiras, bordadeiras, operárias, trabalhadoras domésticas e informais.
Mãos femininas estiveram durante séculos no centro da produção de roupas e, ao mesmo tempo, nas posições mais precarizadas dessas cadeias. É por isso que, no livro, o marxismo não aparece sozinho. Dialogo também com Silvia Federici, Angela Davis e Lélia Gonzalez (1935–1994) para pensar como classe, gênero e raça se cruzam na organização do trabalho, na produção de valor e na distribuição da precariedade.
O capitalismo nunca foi apenas uma abstração econômica. Ele atravessa corpos, territórios, raças, gêneros e fronteiras. E atravessa também aquilo que vestimos.
Quem fez minha camiseta?
Então, quando pergunto “quem fez minha camiseta?”, não estou tentando estragar o prazer de gostar de roupa. Muito pelo contrário. Eu gosto de moda justamente porque sei que ela é muito mais interessante do que o discurso da frivolidade permite enxergar.
A pergunta serve para recuperar aquilo que a mercadoria esconde: quem trabalhou, quanto recebeu, em que condições, quem controla a produção, a distribuição e a marca, quem captura a maior parte do valor e, talvez a pergunta mais importante, quem controla o desejo.
Porque o capitalismo não produz apenas coisas. Produz também vontades.
Por que Marx continua aqui
Talvez seja justamente aí que Marx tenha tanto a dizer em um livro sobre moda. Não porque roupa seja apenas economia, nem porque cada vestido esconda uma conspiração do capital e certamente não porque Marx seja aquela criatura assustadora que habita o imaginário de quem acha que qualquer política pública é o primeiro passo para a tomada dos meios de produção.
Marx aparece porque ajuda a lembrar que, por trás de toda mercadoria, existem pessoas, trabalho, relações de poder e uma história que não aparece na etiqueta.
No fim, a pergunta continua bastante simples: quando eu compro uma roupa, o que exatamente estou comprando? E, talvez mais importante: o que precisou desaparecer da minha vista para que eu enxergasse apenas a roupa?
Um livro sobre aquilo que nossas roupas revelam
Essa pergunta atravessa Moda, a Filha Predileta do Capitalismo – O que a roupa que vestimos revela sobre o mundo que habitamos, meu livro que será lançado pela Editora Alameda.
Nele, parto de coisas aparentemente banais — uma camiseta, uma etiqueta, uma vitrine, uma fábrica, um corpo, um desejo — para investigar as relações entre moda, cultura, política, trabalho e capitalismo. Porque roupa nunca é apenas roupa. Ela carrega matéria-prima, terra, água, tecnologia, trabalho humano, circulação global, imaginário, identidade, classe e poder.
E carrega histórias. Algumas aparecem na passarela. Outras ficam escondidas nas costuras.
A campanha de pré-venda do livro já está no ar no Catarse. Apoiar o projeto agora é ajudar a tornar possível a produção e a circulação dessa pesquisa e fazer com que ela chegue a mais leitores.
No fundo, esse é o convite do livro: olhar para aquilo que vestimos e perguntar o que existe ali além da roupa. Porque a roupa que vestimos revela o mundo que habitamos — e também pode nos ajudar a imaginar o mundo que queremos construir.
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Fonte: Brasil 247