PF aponta que Vorcaro pagou viagens internacionais para servidores do Banco Central
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – O ex-banqueiro Daniel Vorcaro custeou viagens e jantares internacionais para dois servidores do Banco Central acusados de atuar para favorecer o Banco Master, segundo apontam relatórios da Polícia Federal (PF) enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF), informa reportagem da Folha de São Paulo.
De acordo com as investigações policiais, Vorcaro teria financiado parte de uma viagem do ex-chefe de Supervisão Bancária, Belline Santana, acompanhado de sua esposa, para Paris, na França. Além disso, o ex-banqueiro também teria custeado uma viagem do ex-diretor de Fiscalização, Paulo Sérgio Neves de Souza, com sua família para a Disney, nos Estados Unidos.
Os documentos que detalham o caso tiveram o sigilo levantado na quinta-feira (10) pelo ministro do STF André Mendonça. A decisão seguiu uma determinação do presidente da corte, ministro Edson Fachin, como parte da preparação da sessão plenária agendada para a próxima terça-feira (15). Na ocasião, os ministros devem analisar o relatório da PF que cita o ministro Alexandre de Moraes como interlocutor de Vorcaro, bem como o pedido de nulidade desse documento apresentado pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
Detalhes da viagem a Paris e jantares de luxo
Segundo o relatório da PF, Vorcaro organizou diretamente os detalhes da viagem de Belline Santana e da esposa à capital francesa. A investigação destaca que o ex-banqueiro “tratou diretamente com prestadores de serviços no exterior sobre reservas de restaurantes, recepção e logística, chegando inclusive a encaminhar o contato pessoal do servidor para que a programação fosse finalizada”.
Em mensagens interceptadas, Vorcaro orienta dois interlocutores a organizar um jantar no sofisticado restaurante Lapérouse e um almoço no restaurante Loulou. Conforme aponta o documento policial, “uma indicação de que os eventos seriam pagos por Vorcaro é o fato de ele indicar que deveriam ser pedidos nos restaurantes bons vinhos e comida”. A PF confirmou que Belline e sua esposa viajaram a Paris no período das mensagens, embora o relatório não detalhe os valores totais ou outras despesas pagas.
Além da viagem a França, a Polícia Federal afirma que Belline Santana receberia R$ 500 mil por mês do Banco Master. Documentos anexados aos autos comprova a realização de repasses que somam R$ 3,8 milhões para o ex-chefe de Supervisão Bancária. A corporação aponta que os valores consistiam em propina para favorecer a instituição financeira. Em sua defesa, o servidor e os responsáveis pelos pagamentos alegaram que os recursos se destinavam a um programa de treinamento financeiro voltado para jovens.
Em manifestação anterior prestada ao veículo original, o advogado de Belline Santana, Leonardo Palazzi, afirmou que o depoimento do diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, confirmou a atuação institucional de seu cliente, inclusive na interlocução com a PF sobre possíveis ilícitos no Master. A defesa sustentou que Belline adotou todas as providências necessárias e negou que Vorcaro exercesse qualquer tipo de influência sobre suas ações. Procurada novamente na madrugada de sexta-feira (11), a defesa do ex-servidor não respondeu.
Viagem à Disney e a versão da defesa de Paulo Sérgio
No caso de Paulo Sérgio Neves de Souza, a Polícia Federal destacou que “identificaram-se elementos que apontam para o custeio de viagem internacional à Disney para ele e sua família”, fundamentados em diálogos entre o ex-diretor do BC e Vorcaro, nos quais o servidor chega a encaminhar um roteiro de passeios para o banqueiro.
A defesa de Paulo Sérgio negou irregularidades e afirmou que ele pagou integralmente as passagens, hospedagem, ingressos, câmbio e despesas de cartão de crédito da viagem com sua família, sustentando que a origem dos recursos pode ser comprovada por documentos. De acordo com a versão dos advogados, a viagem já estava programada para as férias escolares do início de 2024 e Vorcaro tomou conhecimento do passeio durante o agendamento de uma reunião institucional.
Os advogados afirmam que, no dia do embarque, o ex-banqueiro ofereceu a Paulo Sérgio uma vaga remanescente em um pacote de acesso prioritário aos parques da Disney e da Universal. O servidor teria aceitado a oferta mediante o pagamento de US$ 8 mil em espécie, entregues nos Estados Unidos a uma pessoa indicada por Vorcaro. A defesa declarou ainda que o ex-diretor desconhecia o pagamento de US$ 38 mil feito por Vorcaro ao agente de viagens Leonardo Giunchetti, afirmando que não autorizou, presenciou ou participou dessa transação.
Atuação irregular em favor de interesses privados
No relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal conclui que os dados colhidos demonstram que os dois servidores do Banco Central “atuaram de forma recorrente na defesa e promoção de interesses privados” de Daniel Vorcaro. A conduta dos funcionários, segundo a corporação, extrapola “de maneira significativa, ao que tudo indica, os limites de suas atribuições funcionais no BCB”.
A investigação aponta que ambos os servidores “passaram a oferecer orientação técnica reiterada, revisar minutas de documentos destinados ao próprio BCB, repassar possíveis informações internas de caráter sensível (ou mesmo sigiloso) e participar de reuniões extraoficiais nas quais eram alinhadas estratégias privadas voltadas ao atendimento dos interesses do conglomerado Master”.
Fonte: Brasil 247