El Niño aumenta a importância das redes de transmissão de energia no Brasil
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As projeções sobre a ocorrência de um novo episódio de El Niño reacenderam as preocupações do setor elétrico brasileiro. O fenômeno climático, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, altera os padrões atmosféricos em diversas partes do mundo e costuma provocar impactos significativos sobre o regime de chuvas e as temperaturas no Brasil.
Historicamente, os episódios de El Niño estão associados à redução das precipitações em importantes áreas de geração hidrelétrica do país, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, onde se concentra cerca de 70% da capacidade de armazenamento do Sistema Interligado Nacional (SIN). Ao mesmo tempo, o fenômeno costuma provocar temperaturas mais elevadas em diversas regiões brasileiras, aumentando o consumo de energia elétrica devido ao uso mais intenso de equipamentos de refrigeração.
Essa combinação de menor disponibilidade hídrica e maior demanda por eletricidade coloca o sistema elétrico sob pressão. Recentemente, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) informou que acompanha de perto os possíveis impactos do fenômeno e avalia estratégias para preservar água em reservatórios considerados estratégicos para a segurança energética do país. A preocupação é compreensível: quando há menos chuvas e maior consumo, aumenta a necessidade de utilizar outras fontes de geração, o que altera a operação do sistema em todo o território nacional.
Impactos climáticos e a pressão sobre o Sistema Interligado Nacional
Há, porém, um aspecto menos discutido e igualmente relevante: o papel das redes de transmissão para garantir que o país possa responder de forma eficiente às mudanças provocadas pelo clima.
O sistema elétrico brasileiro possui uma característica singular. O Sistema Interligado Nacional atende mais de 99% da demanda de eletricidade do país e é considerado um dos maiores sistemas interligados do mundo. Essa infraestrutura permite conectar regiões com características climáticas, hidrológicas e energéticas distintas, tornando possível transportar energia ao longo de milhares de quilômetros entre áreas produtoras e centros consumidores.
Essa capacidade se torna particularmente valiosa durante eventos climáticos extremos. O El Niño não afeta todas as regiões brasileiras da mesma forma. Enquanto determinadas bacias hidrográficas podem sofrer redução das vazões e diminuição da capacidade de geração hidrelétrica, outras regiões podem manter condições mais favoráveis de produção de energia.
É justamente nesse contexto que as redes de transmissão assumem um papel estratégico. Quando uma determinada região enfrenta limitações de geração, a infraestrutura de transmissão permite que o Operador Nacional do Sistema aproveite recursos energéticos disponíveis em outras partes do país, equilibrando oferta e demanda e reduzindo os riscos de desabastecimento.
Em outras palavras, se o El Niño modifica o mix energético, reduzindo a geração hidrelétrica em determinadas áreas do país, o sistema dependerá ainda mais da capacidade de transportar energia produzida por outras fontes e em outras regiões. Sem uma rede de transmissão robusta e integrada, essa complementaridade não seria possível.
A transmissão como eixo de integração das energias renováveis
O desafio ganha novas dimensões diante da transformação pela qual passa a matriz elétrica brasileira. Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), cerca de 85% da capacidade instalada do país provém de fontes renováveis. Nos últimos anos, a expansão da geração eólica e solar ampliou significativamente a diversidade energética nacional, com destaque para o crescimento dos empreendimentos localizados no Nordeste.
Ao mesmo tempo, grande parte do consumo continua concentrada nas regiões Sudeste e Sul. Essa distribuição geográfica reforça a importância das redes de transmissão para conectar áreas produtoras e consumidoras, permitindo que o potencial renovável brasileiro seja plenamente aproveitado.
Em cenários associados ao El Niño, essa integração adquire relevância adicional. A capacidade de intercâmbio entre regiões reduz a dependência de condições climáticas específicas e aumenta a flexibilidade operacional do sistema. Quanto maior a diversidade de fontes e de regiões conectadas, maior é a capacidade de resposta diante de eventos extremos.
A experiência internacional reforça essa percepção. Em diferentes países da Ibero-América, a intensificação dos eventos climáticos extremos impulsionou debates sobre a necessidade de sistemas elétricos mais integrados, resilientes e flexíveis. A ampliação das interconexões e a modernização das redes de transmissão vêm sendo tratadas como elementos centrais para fortalecer a segurança energética e viabilizar a crescente participação das fontes renováveis. Em sistemas cada vez mais dependentes de recursos climáticos, a capacidade de transportar energia entre diferentes regiões deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a representar um fator estratégico para a estabilidade do suprimento.
Além dos impactos sobre a geração, o próprio fenômeno climático traz desafios para a infraestrutura de transmissão. Os períodos prolongados de seca favorecem a ocorrência de incêndios florestais, que representam uma das principais ameaças às linhas de transmissão em diversas regiões do país. Incêndios próximos às faixas de servidão podem provocar desligamentos, interromper o fornecimento e exigir ações emergenciais para preservar a segurança da operação.
As ondas de calor também geram impactos relevantes. O aumento simultâneo da demanda de energia e do estresse operacional dos equipamentos exige monitoramento constante e planejamento adequado para garantir a confiabilidade do sistema. Em um contexto de mudanças climáticas, eventos antes considerados excepcionais tendem a ocorrer com maior frequência e intensidade, o que eleva a importância de investimentos em modernização, digitalização, monitoramento remoto e gestão inteligente das redes.
Por essa razão, analisar os impactos do El Niño apenas sob a perspectiva da geração de energia oferece uma visão incompleta dos desafios enfrentados pelo setor elétrico. A segurança energética depende cada vez mais da capacidade do sistema de integrar diferentes fontes, diferentes regiões e diferentes condições climáticas.
À medida que os efeitos das mudanças climáticas se tornam mais evidentes, as redes de transmissão deixam de ser apenas um elo entre geração e consumo para assumir uma função estratégica: garantir que a energia continue chegando aos consumidores com segurança, confiabilidade e eficiência, mesmo diante de cenários climáticos cada vez mais desafiadores. Em um país cada vez mais dependente da integração entre regiões e fontes renováveis, a resiliência do sistema elétrico passa, necessariamente, pela resiliência de suas redes de transmissão, em um contexto de crescente instabilidade climática e transformação da matriz energética.
Sobre o autor
Juan Collado é Country Manager Brasil da Redinter , onde atua dentro da Direção Geral de Negócios Internacionais, seguindo as políticas do Grupo Redeia. Também é diretor suplente da ARGO Holding e de suas quatro subsidiárias. É engenheiro industrial pela Escuela Técnica Superior de Ingenieros Industriales da Universidad Politécnica de Madrid e possui estudos concluídos em Engenharia Técnica Industrial pela Universidad Pontificia Comillas (ICAI), além de MBA Executive pela Universidad Pontificia Comillas (ICADE) e formação em Gestão e Administração para potenciais executivos pelo Grupo Red Eléctrica.
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Fonte: umsoplaneta