Relatório da PF aponta suspeitas de que Toffoli tenha dinheiro de Vorcaro em paraíso fiscal
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Um relatório sigiloso da Polícia Federal de mais de oitenta páginas, enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), apresenta uma série de suspeitas gravíssimas envolvendo o ministro Dias Toffoli e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O documento, denominado Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 893171/2026 e elaborado a partir do conteúdo do telefone celular do empresário apreendido no final de 2025, levanta a hipótese de que o magistrado possa ser o “beneficiário final” ou “proprietário de fato” do Fundo de Investimento em Participações (FIP) Arleen. O fundo recebeu ao menos R$ 35 milhões de Vorcaro e teve seus ativos transferidos para uma holding nas Ilhas Virgens Britânicas, tradicional paraíso fiscal no Caribe, segundo reportagem da revista piauí.
De acordo com o levantamento dos investigadores, o fundo Arleen era sócio do Tayayá Aqua Resort, empreendimento localizado em Ribeirão Claro (PR) do qual o ministro e sua família possuem participação. O relatório aponta que a estrutura financeira passou por sucessivas alterações estratégicas: o fundo mudou de proprietário para as mãos do empresário Alberto Leite (dono da empresa FS Security e amigo do magistrado), alterou seu regulamento para autorizar aplicações no exterior e, posteriormente, repassou cerca de R$ 34 milhões para a holding Egide I, registrada no Caribe. Na avaliação do órgão policial, “foram identificados diversos elementos de informação que, analisados de forma conjunta, apontam no sentido de que o ministro José Antonio Dias Toffoli possa ter figurado como beneficiário final ou proprietário de fato do FIP Arleen, bem como de seus ativos”.
Consultado pela piauí, o gabinete de Dias Toffoli negou categoricamente qualquer irregularidade. Por meio de nota, a assessoria do ministro afirmou que ele “jamais manteve ou teve direta ou indiretamente recursos no exterior” e que “jamais realizou qualquer operação direta ou indiretamente nas Ilhas Virgens Britânicas”. Além disso, o gabinete ressaltou que o relatório “foi arquivado, com decisão de trânsito em julgado” e que os dez integrantes da Corte tiveram ciência do conteúdo em reunião realizada em fevereiro de 2026, deliberando pela inocorrência de suspeição, além de salientar que o presidente Edson Fachin já havia rejeitado o pedido de distribuição como inquérito.
Manobras financeiras e o circuito do fundo
A cronologia mapeada pelos agentes federais detalha que os movimentos financeiros centrais se concentraram ao longo de 2025. Em fevereiro daquele ano, Alberto Leite adquiriu o Arleen. No mês seguinte, abriu a Egide I Holding nas Ilhas Virgens Britânicas e modificou as regras internas do fundo para liberar o envio de capital ao estrangeiro. Entre novembro e dezembro, o Arleen liquidou suas cotas e remeteu aproximadamente R$ 34 milhões para a conta da holding caribenha. A PF assinala no texto que “todo o ativo do Arleen […] é transferido para a Egide I Holding na liquidação do fundo”.
As mensagens resgatadas no dispositivo do banqueiro expõem apreensão extrema com os aportes voltados ao empreendimento paranaense. Em 14 de agosto de 2024, ao saber de um atraso na transferência dos valores, Vorcaro mobilizou seus operadores — o cunhado Fabiano Zettel e o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que atuava como interlocutor do banqueiro — para solucionar o travamento de recursos, chegando a procurar diretamente Toffoli. Em diálogos gravados, Zettel confirmou pagamentos expressivos: “Pagamos 20M lá atrás. Agora mais 15M”, concluindo no fim do dia com a mensagem “Tayayá resolvido”. Meses antes, em maio, Vorcaro declarou ao cunhado após uma ligação do magistrado: “Vc não resolveu o aporte no fundo (…) Tayayá (…) Estou em situação ruim”.
No final de 2025, o banqueiro orientou a transferência formal do Arleen para Alberto Leite. Na ocasião, Vorcaro pediu a confecção de uma minuta de contrato sem identificação explícita de nomes: “Sem nome”, ordenou. Diante do encerramento das negociações em fevereiro de 2025, Zettel comemorou: “Alberto Leite concluído! Tá todo feliz”. Posteriormente, Leite vendeu sua fatia no resort para a PHD Holding, do advogado Paulo Humberto Barbosa, associado ao grupo J&F. Em declarações, Leite negou sociedade com Toffoli ou Vorcaro, classificando a transação como uma operação imobiliária regular promovida por sua empresa.
Alteração de posicionamento em processo de precatórios
A segunda vertente de suspeita levantada pela Polícia Federal envolve a possível interferência do banqueiro em julgamentos da Suprema Corte relativos a precatórios do setor sucroalcooleiro. O Banco Master mantinha uma carteira com mais de R$ 10 bilhões em tese análoga, tendo interesse direto no desfecho de uma ação movida pela usina Alcídia (do grupo Atvos) contra a União. Dias antes do julgamento desse processo, Toffoli deu um posicionamento divergente de sua linha histórica em um caso similar envolvendo a empresa Raízen, votando favoravelmente ao Estado e provocando pânico nos executivos do banco.
Na ocasião, a mudança de postura motivou mensagens alarmadas de Fábio Faria para Vorcaro: “Matou a gente”, “Comecei a suar”. Em resposta, o proprietário do Banco Master afirmou: “Toffoli virou o voto” e “Tô tratando aqui”, enquanto o diretor jurídico da instituição financeira, André Kruschewsky, ofereceu atuação para retirar a pauta do julgamento. A sessão acabou adiada após pedido de vista do ministro Kassio Nunes Marques e ausência justificada de Toffoli, sendo retomada em 1º de outubro de 2024.
Na sessão definitiva da Alcídia, Toffoli retornou ao entendimento de apoiar a tese da usina contra a União, assegurando o resultado favorável por 3 votos a 2. Tão logo o placar se consolidou, operadores do banco notificaram Vorcaro (“Ganhamos Alcídia”), que comemorou e repassou a notícia a um diretor do Banco Central. Embora classifique que o evento exige “aprofundamento analítico” e não apresente conclusões definitivas, a Polícia Federal registrou que a troca de mensagens assume “especial relevância” por ter ocorrido na véspera do julgamento. O gabinete de Toffoli declarou que não houve alteração indevida de voto e que sua orientação jurídica no caso específico manteve coerência.
Vínculos advocatícios, voos e registros de encontros
A investigação revela ainda conexões profissionais entre o dono do Banco Master e a advogada Roberta Rangel, ex-esposa de Dias Toffoli (o casal se separou em 2025). Documentos apreendidos demonstram que Roberta representou judicialmente empresas cujos precatórios bilionários compunham o ativo do Master, além de ter sido contratada pelo banqueiro em procedimentos perante a Justiça Federal de Rondônia em dezembro de 2020. Em mensagem de março de 2024, o próprio Vorcaro disparou sobre a advogada: “Ela é minha advogada”. Os indícios apontam prestação de serviços continuada entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2025 — período em que Toffoli veio a ser sorteado relator de processos ligados ao Master no STF, no final de 2025.
O relatório policial computa “ao menos 12 registros distintos de encontros presenciais” planejados ou realizados entre o ministro e o banqueiro entre o fim de 2023 e o início de 2025, incluindo jantares residenciais em Brasília e São Paulo, eventos na Europa e presença em celebrações de aniversário. Além disso, foram contabilizadas 17 chamadas telefônicas por aplicativo entre os dois aparelhos ao longo de 2024, com conversas completadas que somaram quase sete minutos.
Outro ponto destacado é o compartilhamento de transporte aéreo. Em março de 2024, para viabilizar um deslocamento até a “fazenda do Toffoli” (que a PF identificou geograficamente como o resort Tayayá), Vorcaro colocou à disposição de Fábio Faria um helicóptero sob sua cota de uso na empresa Prime You, autorizando o faturamento do serviço em sua conta pessoal.
Em nota oficial, o gabinete de Dias Toffoli reiterou que o magistrado “jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima” com Daniel Vorcaro e rechaçou ter recebido valores do banqueiro ou de seus familiares. A nota sustentou ainda que a participação do ministro no evento citado em Londres ocorreu mediante convite do ministro Alexandre de Moraes.
Trâmite no STF e atribuição de relatoria
O relatório da PF foi encaminhado originariamente ao presidente da Suprema Corte, ministro Edson Fachin, por envolver autoridade com foro por prerrogativa de função. Por limites legais de investigação sobre ministros do tribunal sem autorização prévia, os agentes não puderam aprofundar a tomada de depoimentos ou a coleta de provas complementares sobre os R$ 35 milhões nas Ilhas Virgens Britânicas.
O documento seguiu para o relator do inquérito do Banco Master no STF, ministro André Mendonça. Questionado sobre a ausência de novas diligências ou sobre a manutenção do sigilo das peças, Mendonça informou que os autos específicos da arguição de suspeição não lhe foram remetidos formalmente para tomada de providências. A matéria aponta que, embora o colegiado do STF tenha arquivado o pedido de suspeição formulado contra Toffoli, o relatório policial e as apurações subjacentes permanecem válidos sob custódia, sem que tenham sido levantados os segredos de justiça até o momento.
Fonte: Brasil 247