O golpe e o assassinato de Allende: a ferida jamais cicatrizada no Chile
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 — Há um 11 de setembro que a América Latina jamais esqueceu. Vinte e oito anos antes dos atentados contra os Estados Unidos, o dia 11 de setembro já havia se tornado uma data trágica na história do continente. Na manhã de 11 de setembro de 1973, as Forças Armadas chilenas se levantaram contra o presidente constitucional Salvador Allende, cercaram o Palácio de La Moneda e bombardearam a sede do governo. Ao final daquele dia, Allende estava morto e começava uma das mais violentas ditaduras da história sul-americana.
Cinquenta e três anos depois, o golpe permanece como uma ferida aberta no Chile. Não apenas pelas vítimas da repressão que se seguiu, mas porque o 11 de setembro de 1973 interrompeu uma experiência política que despertava enorme interesse mundial: a tentativa de construir uma transição democrática e institucional para o socialismo, respeitando eleições, Congresso, partidos políticos e liberdades públicas.
Allende chamava esse projeto de “via chilena ao socialismo”. Médico, socialista e parlamentar com longa trajetória institucional, havia disputado a Presidência várias vezes antes de vencer as eleições de 1970. Seu governo nacionalizou setores estratégicos, incluindo a mineração do cobre, aprofundou a reforma agrária e ampliou políticas sociais, procurando redistribuir renda e poder numa sociedade marcada por profundas desigualdades.
A experiência despertou esperança entre trabalhadores e movimentos populares, mas também encontrou forte resistência das elites chilenas e dos Estados Unidos.
Washington contra Allende
Hoje existe ampla documentação histórica sobre a atuação norte-americana contra o governo chileno. Documentos oficiais desclassificados mostram que a administração de Richard Nixon e setores da inteligência dos Estados Unidos trabalharam para impedir a chegada de Allende ao poder e, depois de sua posse, para enfraquecer seu governo.
O Chile havia se transformado numa peça importante da Guerra Fria. Para Washington, a possibilidade de um governo socialista chegar ao poder por eleições livres na América Latina representava um desafio especialmente preocupante. Se a experiência chilena tivesse êxito, poderia demonstrar que profundas transformações sociais poderiam ocorrer sem uma revolução armada e dentro das instituições democráticas.
A administração Nixon autorizou operações clandestinas contra Allende, financiou forças oposicionistas e buscou aumentar a pressão econômica sobre o país. A famosa orientação de fazer a economia chilena “gritar”, registrada em documentos daquele período, tornou-se símbolo da estratégia de desestabilização.
Isso não significa que todos os problemas enfrentados pelo governo Allende tenham sido produzidos externamente. O Chile vivia uma crise econômica severa, inflação elevada, desabastecimento, greves, radicalização política e crescente conflito institucional. Mas é impossível compreender plenamente a queda de Allende sem considerar a intervenção dos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria.
O último dia de Salvador Allende
Na manhã de 11 de setembro, unidades das Forças Armadas começaram a ocupar pontos estratégicos do país. A Marinha havia se rebelado em Valparaíso. Pouco depois, ficou claro que o golpe envolvia as principais forças militares.
Allende dirigiu-se ao Palácio de La Moneda.
Os militares exigiram sua renúncia. Ele recusou.
Foi então que pronunciou, pela Rádio Magallanes, o discurso que entraria para a história política latino-americana. Sabendo que provavelmente não sairia vivo do palácio, Allende afirmou que não renunciaria e declarou ter confiança no futuro do Chile.
“Tenho fé no Chile e em seu destino”, disse.
Em outra passagem que atravessaria gerações, afirmou que “mais cedo do que tarde” voltariam a se abrir “as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor”.
Poucas horas depois, aviões Hawker Hunter da Força Aérea chilena bombardearam La Moneda.
O palácio foi parcialmente destruído e tomado pelas tropas golpistas.
Allende morreu dentro de La Moneda.
A morte de Allende
Durante décadas, a morte do presidente foi objeto de controvérsia e suspeitas. A versão oficial afirmava que Allende havia cometido suicídio com um fuzil AK-47 que recebera de Fidel Castro. Muitos de seus partidários sustentaram a hipótese de que tivesse sido assassinado pelas forças golpistas.
Décadas depois, seus restos mortais foram exumados e examinados por uma equipe internacional de especialistas. A investigação concluiu que as evidências eram compatíveis com suicídio, conclusão aceita posteriormente pela Justiça chilena.
Politicamente, porém, sua morte permanece inseparável do golpe.
Allende morreu dentro de um palácio presidencial cercado, atacado e bombardeado por militares que exigiam sua rendição. Por isso, para grande parte da esquerda latino-americana, sua morte é compreendida historicamente como consequência direta da ruptura violenta da ordem constitucional que derrubou seu governo.
Começava a era Pinochet
O general Augusto Pinochet, nomeado comandante-chefe do Exército por Allende apenas algumas semanas antes, emergiu como líder da junta militar e posteriormente concentrou o poder.
Começava uma ditadura que duraria 17 anos.
Partidos foram proibidos ou colocados na clandestinidade. O Congresso foi fechado. Sindicatos e organizações populares sofreram perseguição. Livros foram queimados. Universidades sofreram intervenções. Milhares de pessoas foram presas.
O Estádio Nacional de Santiago transformou-se num gigantesco centro de detenção.
Entre os presos estava Víctor Jara, um dos maiores músicos populares da história chilena e apoiador de Allende. Jara foi torturado e assassinado poucos dias depois do golpe, tornando-se outro símbolo mundial da violência da ditadura.
Segundo as comissões oficiais chilenas criadas depois da redemocratização, mais de 3 mil pessoas foram mortas ou desapareceram em consequência da repressão política e dezenas de milhares foram presas e torturadas.
Centenas de milhares de chilenos deixaram o país.
O laboratório neoliberal
A ditadura de Pinochet também transformou profundamente a economia chilena.
Economistas ligados à Universidade de Chicago, que ficaram conhecidos como “Chicago Boys”, ganharam influência na formulação das políticas econômicas. Privatizações, abertura comercial, redução da participação do Estado e reformas do sistema previdenciário transformaram o Chile num dos primeiros grandes laboratórios das políticas que posteriormente seriam identificadas com o neoliberalismo.
Durante décadas, admiradores do chamado “modelo chileno” destacaram crescimento econômico, estabilidade macroeconômica e abertura ao investimento estrangeiro.
Seus críticos apontaram outra herança: concentração de renda, mercantilização de serviços essenciais, aposentadorias insuficientes e profundas desigualdades sociais.
Essa discussão não desapareceu com o fim da ditadura. Pelo contrário, tornou-se uma das principais disputas políticas do Chile democrático.
Uma ferida que atravessa gerações
Pinochet deixou o poder em 1990, depois de perder o plebiscito de 1988 que deveria confirmar sua permanência no governo. O Chile recuperou a democracia, viveu décadas de estabilidade institucional e realizou importantes avanços sociais.
Mas o passado nunca desapareceu completamente.
As manifestações gigantescas iniciadas em 2019 mostraram que uma parcela importante da sociedade chilena continuava questionando estruturas econômicas, sociais e institucionais associadas ao período da ditadura.
Até a Constituição tornou-se parte dessa disputa. A Carta de 1980 foi elaborada durante o regime Pinochet e, embora tenha sido profundamente reformada durante a democracia, sua origem permaneceu como símbolo da continuidade institucional de aspectos do regime.
As tentativas recentes de substituí-la demonstraram também como o próprio Chile continua dividido sobre o significado de seu passado e sobre o modelo de sociedade que pretende construir.
Allende entrou para a História
Salvador Allende não viveu para assistir ao retorno da democracia.
Mas suas últimas palavras adquiriram uma força que provavelmente nem ele poderia imaginar naquela manhã de setembro.
O presidente derrotado militarmente tornou-se uma das figuras mais reconhecidas da esquerda mundial. Sua imagem passou a simbolizar tanto a experiência democrática do socialismo chileno quanto a resistência às ditaduras que se espalhariam pela América Latina durante a Guerra Fria.
Sua trajetória também deixou uma pergunta histórica que continua aberta: até onde uma sociedade pode promover transformações econômicas profundas sem provocar a reação daqueles que controlam parcelas importantes do poder econômico, político e militar?
O Chile de 1973 nunca conseguiu responder plenamente a essa pergunta.
O outro 11 de setembro
Para grande parte do mundo, dizer “11 de setembro” significa imediatamente lembrar os atentados de 2001 contra as Torres Gêmeas e o Pentágono.
Para a América Latina, porém, existe um 11 de setembro anterior.
Naquele dia de 1973, um presidente eleito foi derrubado, o palácio presidencial foi bombardeado e uma democracia que havia sido uma das mais sólidas do continente mergulhou em 17 anos de ditadura.
Cinquenta e três anos depois, o Chile é novamente uma democracia. Mas sociedades não apagam facilmente experiências dessa magnitude. Mortos, desaparecidos, torturados, exilados e famílias separadas não pertencem apenas aos livros de História. Sua memória atravessa gerações.
E é por isso que, todos os anos, quando chega 11 de setembro, o Chile volta inevitavelmente àquela manhã de 1973.
Salvador Allende terminou seu último discurso dizendo que sua voz não seria silenciada e que as grandes alamedas voltariam a se abrir.
As alamedas se abriram.
A ferida, porém, jamais cicatrizou completamente.
Fonte: Brasil 247