Declaração final na Cúpula de Nova Déli deverá sair aos 45 minutos do segundo tempo

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Por Leonardo AttuchBrasil 247

Por Leonardo Attuch, de Nova Déli — Tudo indica que a Cúpula dos BRICS, que será realizada neste fim de semana, nos dias 12 e 13 de setembro, em Nova Déli, terminará com uma declaração final. Mas o consenso deverá ser alcançado, como se diz no futebol, aos 45 minutos do segundo tempo. Até a véspera do encontro dos líderes, os sherpas dos 11 países do bloco, reunidos no luxuoso hotel Oberoi, ainda trabalham para superar divergências relacionadas principalmente à guerra no Oriente Médio.

A questão mais delicada está na formulação sobre o conflito envolvendo o Irã. A solução que vem sendo construída pela diplomacia indiana é evitar condenações nominais a países específicos, como Estados Unidos e Israel, com os quais a Índia mantém fortes relações comerciais e militares. Se prevalecer a redação atualmente negociada, não haverá condenação direta a nenhum dos dois países. O texto deverá se apoiar em princípios mais gerais, como a defesa da Carta das Nações Unidas, da soberania e da integridade territorial dos Estados, além da condenação a agressões e da defesa do diálogo e da diplomacia.

É uma solução tipicamente indiana. Em vez de transformar os BRICS numa aliança contra o Ocidente, Nova Déli procura preservar aquilo que talvez seja hoje o maior ativo político do agrupamento: sua capacidade de reunir países com interesses, alianças e visões de mundo muito diferentes em torno de uma agenda comum de reforma da governança global.

O desafio tornou-se muito maior depois da ampliação dos BRICS. Um grupo que nasceu com Brasil, Rússia, Índia e China, recebeu posteriormente a África do Sul e hoje reúne 11 membros plenos. Entre eles estão países como Irã e Emirados Árabes Unidos, cujas posições sobre a atual crise no Oriente Médio não são necessariamente convergentes — e ambos se consideram agredidos pelo outro. Construir um documento aprovado por consenso entre todos esses atores é uma tarefa diplomática muito mais complexa do que nos primeiros anos do agrupamento.

Por isso mesmo, se a Declaração de Nova Déli for aprovada, sua própria existência será uma notícia política importante. Demonstrará que a ampliação dos BRICS não tornou o bloco ingovernável e que diferenças geopolíticas profundas podem ser administradas dentro de uma estrutura baseada no consenso.

Há outro sinal poderoso de que ninguém em Nova Déli parece trabalhar com a hipótese do fracasso: a confirmação da presença do presidente chinês, Xi Jinping. Será sua primeira visita à Índia desde 2019, antes dos graves confrontos fronteiriços de 2020 que levaram as relações entre as duas maiores potências asiáticas a um dos piores momentos de sua história recente.

A viagem de Xi, portanto, transcende a própria agenda dos BRICS. Ela representa mais um passo no degelo entre Índia e China, dois gigantes que deverão exercer influência crescente sobre os destinos econômicos e políticos do século XXI. Depois de anos de tensão, os dois países vêm reconstruindo canais de diálogo e buscando administrar suas divergências sem permitir que elas inviabilizem uma relação econômica e estratégica inevitável.

Nesse contexto, seria difícil imaginar um cenário em que Xi Jinping desembarcasse em Nova Déli para uma visita tão simbólica e a cúpula terminasse sem uma declaração consensual. Isso não significa que o documento já esteja fechado. Ao contrário: as negociações continuam e podem avançar até os últimos momentos. Mas a presença do líder chinês eleva consideravelmente o custo político de um fracasso, tanto para a presidência indiana dos BRICS quanto para o próprio processo de reaproximação entre Índia e China.

O primeiro-ministro Narendra Modi também tem muito em jogo. A Índia pretende utilizar a cúpula para demonstrar que sua política de autonomia estratégica permite dialogar simultaneamente com Rússia, China, Brasil, Estados Unidos, Europa e os diferentes polos do Sul Global. Conseguir uma declaração assinada por todos os integrantes dos BRICS seria uma demonstração concreta dessa capacidade de articulação.

A ausência de condenações nominais aos Estados Unidos e a Israel também deve ser compreendida dentro dessa lógica. O objetivo indiano não parece ser diluir princípios, mas encontrar uma linguagem capaz de preservar o consenso. Nova Déli quer fortalecer os BRICS sem transformá-los numa OTAN às avessas ou numa coalizão ideológica antiocidental.

Esse talvez seja, aliás, um dos elementos mais interessantes da atual transformação da ordem mundial. Os BRICS não precisam reproduzir a lógica dos blocos militares do século XX para adquirir relevância. Sua força pode residir justamente na capacidade de acomodar diferenças e construir convergências em torno de temas como desenvolvimento, financiamento, comércio, tecnologia, reforma das instituições multilaterais e maior representação do Sul Global.

A Declaração de Nova Déli, portanto, valerá não apenas pelo que disser, mas pelo que representará. Se 11 países tão diferentes conseguirem assinar o mesmo documento num dos momentos mais turbulentos da política internacional recente, o resultado será uma demonstração de maturidade institucional do bloco.

O jogo ainda está sendo disputado. Há divergências importantes sobre a mesa e nenhuma declaração deve ser considerada aprovada antes do consenso final. Mas todos os sinais políticos apontam para uma intensa operação diplomática destinada a evitar que a principal cúpula dos BRICS sob a presidência indiana termine sem um documento comum.

A tendência, portanto, é de gol no fim do jogo. Aos 45 minutos do segundo tempo, Nova Déli deverá entregar sua declaração — e, com ela, uma mensagem de que os BRICS ampliados conseguiram atravessar seu primeiro grande teste de unidade.

Fonte: Brasil 247

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