Por João Feres Jr.Carta Capital

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Como cada campo do eleitorado percebe o horário gratuito, os debates e as sabatinas

A propaganda eleitoral gratuita, os debates televisivos e, um pouco depois, as sabatinas nos telejornais formavam o tripé pelo qual os candidatos se apresentavam aos eleitores no Brasil antes do advento das redes sociais. Cada um dá a ver um candidato diferente: o horário gratuito o mostra como ele quer ser visto, em peça produzida e sob controle da campanha; o debate o expõe ao confronto com os adversários; a sabatina o deixa sozinho diante de jornalistas que perguntam o que ele preferiria não responder. Contudo, com a chegada das redes sociais, os meios de comunicação entre candidatos e eleitorado se multiplicaram e se diversificaram, ao mesmo tempo abrindo espaço para campanhas de desinformação em massa. Sabemos, portanto, que o panorama da comunicação eleitoral se alterou sensivelmente, mas em que medida? Qual seria o papel desse tripé clássico da comunicação eleitoral nos dias de hoje? Como o eleitorado percebe cada um desses canais de informação política? É sobre esses três formatos que perguntamos a seis grupos focais contínuos do Monitor do Debate Público e, em seguida, emendamos perguntas sobre as sabatinas de Lula e de Flávio Bolsonaro no Jornal Nacional.

Os três têm idades e biografias distintas. O horário gratuito no rádio e na televisão existe desde os anos 1960, mas foi esvaziado na ditadura pela Lei Falcão, de 1976, que por seis anos reduziu a propaganda a nome, número, foto e currículo muito resumido, sem voz nem proposta. A redemocratização o devolveu inteiro e, com ele, vieram os debates presidenciais, que estrearam em rede nacional em 1989. As sabatinas, em que um candidato senta sozinho diante dos jornalistas, são mais novas e só se firmaram nos ciclos recentes. Desde então, duas forças corroeram o arranjo: as reformas eleitorais encurtaram o horário gratuito, que caiu de 45 para 35 dias em 2015, e parte do público trocou a tevê aberta pela tela do celular.

Do cabedal de comentários e respostas dadas pelos participantes dos grupos, surgem achados dignos de reflexão. O horário eleitoral gratuito é desprezado da direita à esquerda. Bolsonaristas, indecisos e lulistas repetem quase as mesmas palavras: é “montado”, “texto decorado”, “os mesmos vídeos” todo ano, um “show de piadas”. Poucos param diante da televisão. Quem assiste o faz de passagem, “comendo pipoca”, enquanto cuida da casa. Mesmo quem lhe confere alguma utilidade, para conhecer nomes menores, diz que aquilo não decide voto. Num eleitorado dividido, a rejeição unânime a um formato chama atenção.

O horário eleitoral gratuito é desprezado da esquerda à direita e ninguém diz mudar o voto depois de assisti-lo

O debate ocupa o polo oposto, e o apreço também cruza os campos. É o formato mais valorizado. O argumento se repete entre lulistas e bolsonaristas: ali o candidato aparece “sem roteiro”, “sob pressão” e, portanto, podemos ver quem tem “postura de presidente”. A palavra que organiza essa avaliação é “improviso”, a percepção de que só no confronto direto o discurso decorado se rompe e algo verdadeiro escapa. Vários dizem, com todas as letras, que um debate pode mudar seu voto, coisa que ninguém atribui ao horário gratuito.

É na sabatina que a clivagem ideológica reaparece, por um motivo preciso: ela é mediada por um jornalista, e o jornalista, na percepção de parte do eleitorado, tem lado. A direita se divide entre gostar do confronto e desconfiar de quem o conduz. Muitos bolsonaristas dizem apreciar o formato, mas recusam a Globo em bloco: “perguntas capciosas”, “só querem lacrar”, “prefiro SBT e Record”. Lulistas e progressistas, ao contrário, tratam a sabatina como o momento em que o candidato é “devidamente confrontado”. A mesma cena é vista como cobrança por um lado e como emboscada pelo outro.

As sabatinas de Lula e Flávio funcionaram como testes dessa hipótese. Diante da mesma entrevista, cada campo viu o adversário fazer o que condena. Para bolsonaristas, Lula “enrolou”, mentiu e fugiu das perguntas. Para lulistas, foi educado, preparado e vítima de um “interrogatório” preso aos escândalos do filho, e não às propostas. Uma semana depois, os papéis se inverteram: a direita viu Flávio “desmontar as armadilhas” e sofrer mais interrupções que Lula, enquanto a esquerda o achou pior que o pai, desviando de tudo e falando só do rival. O juízo sobre o desempenho seguiu, quase sem exceção, a preferência que já existia.

Improviso. No debate, o eleitor afirma avaliar quem tem “postura de presidente” ao lidar com a pressão em um ambiente “sem roteiro” – Imagem: Renato Pizzutto/Band e Charles Vieira

Dois detalhes escapam a esse alinhamento. O primeiro é que nem toda a direita comprou a tese da perseguição: alguns bolsonaristas elogiaram justamente a dureza das perguntas feitas a Lula e admitiram que Flávio não abriu as contas do filme. O segundo, mais revelador, vem dos indecisos. Foram eles que saíram das duas sabatinas igualmente insatisfeitos, achando os dois candidatos evasivos, “rasos”, presos à “briguinha” de um com o outro. Em suma, o formato que mais deveria informar quem ainda não decidiu foi o que menos o convenceu.

Por baixo de tudo corre uma mudança que atravessa os seis grupos: esses próprios formatos – horário eleitoral, sabatinas e debates – não são somente consumidos ao vivo, mas também em cortes. Instagram, YouTube, “o algoritmo”, diz um participante, “sempre me traz os melhores momentos”. Até quem valoriza debate e sabatina declara os consumir fatiados, no recorte que a plataforma escolhe. A propaganda que a lei instituiu perde público, o momento apelativo que a edição operada pelos criadores de conteúdo ganha. Aqui volta 1989, invertido: o poder de enquadrar a ­disputa saiu da mesa de edição da emissora, como no debate entre Lula e Collor, e foi para o algoritmo do feed. E o horário gratuito, único espaço que os candidatos controlam, está prestes a se tornar um dado histórico. •

*João Feres Jr. é professor de Ciência Política do Iesp-Uerj, coordenador do Observatório das Eleições e do Lemep, laboratório responsável pelo portal Manchetômetro. O projeto Observatório das Eleições 2026 é uma iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Estudos sobre Política e Integridade Eleitoral (Iepi). O Observatório tem o objetivo de monitorar grandes questões e elementos relativos às eleições, de modo mais geral, e aos processos eleitorais especificamente. A iniciativa contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros, tanto no campo do financiamento quanto no campo da divulgação.

Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O tripé da comunicação’


João Feres Jr.

Professor de Ciência Política do IESP-UERJ, o antigo Iuperj. Coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), que abriga o site Manchetômetro (www.manchetometro.com.br) e o boletim semanal Congresso em Notas (congressoemnotas.tumblr.com).

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Fonte: Carta Capital

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