Baião de dois
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Sucessão estadual sem terceira força tende a terminar no primeiro turno na maioria dos estados
Um primeiro turno com ares de segundo. Assim pode ser definida a eleição para governador na maioria dos estados nordestinos. Isso porque as disputas estão concentradas basicamente entre duas candidaturas, sem uma terceira força capaz de desequilibrar o jogo. Com exceção do Piauí, é possível também afirmar que não há um favoritismo cristalizado, sinal de que o resultado das urnas deverá ser disputado voto a voto. A menos de um mês das eleições, os candidatos se alternam na liderança das pesquisas, geralmente dentro da margem de erro e em situação de empate técnico, e num cenário onde os eleitores indecisos podem tornar-se o fiel da balança. As pesquisas eleitorais divulgadas nas últimas semanas permitem afirmar que a sucessão estadual no Nordeste terá caráter plebiscitário: em vez de uma disputa pulverizada, o eleitor deverá escolher entre apenas duas opções reais de poder.
No Piauí, o governador Rafael Fonteles (PT) deverá se reeleger com facilidade no primeiro turno. Ele aparece acima de 50% dos votos válidos, enquanto a soma de seus adversários fica na casa dos 30%. Nos demais estados, a diferença de voto entre o governador que será eleito e o segundo colocado deverá ser mínima. Na Bahia e no Ceará, as forças de oposição se uniram em um único bloco para tentar interromper mais de 20 anos de governos petistas – um cenário bastante diferente do que se viu em 2022, quando esses grupos estavam pulverizados em palanques distintos. Na disputa baiana, ACM Neto (União Brasil) aparece com 49,1% na pesquisa AtlasIntel divulgada no início deste mês, contra 47,9% de Jerônimo Rodrigues (PT), uma diferença semelhante aos números de agosto da Quaest: ACM Neto tem 39% e Rodrigues, 37%. Os outros não atingem 5%, e indecisos não chegam a 10%.
No Ceará, o PT ainda aposta na força do presidente Lula para reverter a vantagem de cerca de 10 pontos porcentuais de Ciro Gomes (PSDB) sobre o governador Elmano de Freitas, candidato à reeleição. “Assim como a oposição na Bahia reuniu suas forças para tentar impedir a reeleição de Jerônimo Rodrigues, no Ceará, Capitão Wagner e Roberto Cláudio – que em 2022 disputaram entre si e contra Elmano – também se uniram. São casos que ilustram bem a tendência de agregação das forças políticas e de redução da fragmentação das candidaturas. Isso tem transformado o primeiro turno em uma etapa decisiva na maioria das disputas na região”, avalia o cientista político Marcos Paulo Campos, professor da Universidade Estadual do Ceará e membro do Observatório de Política do Nordeste.
No Piauí, a vitória de Rafael Fonteles se consolida, já Cadu de Lula pode ficar fora do segundo turno potiguar
Para o pesquisador, mesmo com um número significativo de indecisos, o cenário não deve sofrer grandes alterações até o primeiro turno, em 4 de outubro. Isso porque a maior parte desse eleitorado tende a dividir-se entre os dois principais palanques ou mesmo se abster. “A única possibilidade de mudança seria se a soma dos indecisos e dos demais candidatos superasse o primeiro colocado, ou se os indecisos migrassem em peso para a terceira via – e olhe lá”, ressalta.
Em Pernambuco, a fatura também deverá ser liquidada em 4 de outubro, pois os 2% que somam as candidaturas minoritárias não mexem no tabuleiro. A mais recente pesquisa Quaest, divulgada na terça 8, revela que a governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD) tem 43% das intenções de votos, contra 37% de João Campos (PSB), ex-prefeito do Recife. “A tendência é Raquel Lyra vencer no primeiro turno com ampla margem, em razão de ser muito identificada com o trabalho que vem desenvolvendo. Já João Campos é visto como uma pessoa cujo momento ainda não chegou. O sentimento é de continuidade do governo”, explica o cientista político Adriano Oliveira, professor da UFPE e sócio do Instituto de Pesquisa Cenário Inteligência.
Com pesquisa recente realizada na Paraíba, Oliveira também prevê a reeleição do governador Lucas Ribeiro (PP) no primeiro turno, a partir da mesma análise de que o sentimento do eleitor é de continuidade. Segundo o pesquisador, a tendência lá é Ribeiro abrir ainda mais a vantagem que já está cristalizada em relação aos palanques de Cícero Lucena (MDB) e Efraim Filho (PL), que travam uma guerra pela segunda colocação. Na Quaest do fim de agosto, o governador tem 38%, Lucena 19% e o candidato bolsonarista, 18%. “As intenções de voto ainda não sugerem vantagem suficiente para a chapa governista garantir vitória nessa etapa, mas, como Cícero e Efraim são obrigados a disputar entre si para ver quem poderia ir para um eventual segundo turno, a tendência de crescimento de Lucas se fortalece e ele poderá encerrar a disputa já no primeiro”, analisa José Artigas, cientista político e professor da UFPB.
Imagem: Redes Sociais
Em Alagoas, a disputa está tecnicamente empatada, de acordo com o último levantamento da Quaest, do fim de agosto: Renan Filho (MDB) aparece com 42%, contra 40% de JHC (PSDB) e 1% de Lenilda Luna (UP). Em Sergipe, o governador Fábio Mitidieri (PSD) se consolida como favorito, com 12 pontos à frente do segundo colocado, Valmir Francisquinho (Republicanos), segundo as pesquisas Real Time Big Data, do início de setembro, e a Quaest, do fim de agosto. No Maranhão, o favoritismo de Eduardo Braide (PSD), ex-prefeito de São Luís, também pode estancar a sucessão estadual em 4 de outubro. Na Quaest de agosto ele aparece com 44%, quase 20 pontos à frente de Orleans Brandão (MDB), que tem 25%, e 38 pontos a mais que o terceiro colocado, o petista Felipe Camarão, com 6%. Os indecisos somam 17% e as candidaturas minoritárias não passam de 4%. “Braide formou uma coalizão que consegue tanto os votos dos insatisfeitos com o governo Carlos Brandão (tio de Orleans), quanto das pessoas mais à direita que não votam no PT”, destaca a cientista política Ananda Marques.
Até o momento, o estado nordestino com mais chance de ter segundo turno é o Rio Grande do Norte. Governado pelo PT há oito anos, o petista Cadu de Lula corre contra o tempo para garantir o nome no segundo turno, num cenário totalmente embolado, sem um favoritismo consolidado. Na pesquisa do Instituto Exatus, divulgada no início de setembro, o petista tem 17,96%, o bolsonarista Álvaro Dias (PL), 20,56%, e Allyson Bezerra (União Brasil), 37,42%. “Nenhum deles disputou cargos majoritários em nível estadual, portanto, não têm uma base eleitoral tão conhecida. Então, tudo pode acontecer, a preferência de voto ainda é algo muito volátil”, opina Alan Lacerda, cientista político e professor do Instituto de Políticas Públicas da UFRN. •
Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Baião de dois’
Fabíola Mendonça
Repórter correspondente de CartaCapital em Pernambuco
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Fonte: Carta Capital