Ação entre amigas
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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32 anos
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“A sala inteira rindo junto é a música que mais amo ouvir na vida”, afirma Susana Garcia, a cineasta campeã de bilheteria no cinema brasileiro nos últimos 30 anos
Minha Melhor Amiga tornou-se, no primeiro fim de semana de setembro, o primeiro filme nacional a liderar as bilheterias nos cinemas do País em 2026. A comédia foi vista, em cinco dias, por 709 mil espectadores – e vendeu mais ingressos que Homem-Aranha: Um Novo Dia.
O principal chamariz do filme são, sem dúvida, as atrizes Ingrid Guimarães e Mônica Martelli – que estão geniais nos papéis das melhores amigas que de fato são. Mas, por trás da dupla, estão outras duas máquinas de fazer sucesso.
Uma delas é a Paris Filmes, distribuidora atrelada a vários dos grandes lançamentos brasileiros e, de alguns anos para cá, também produtora.
“Por que se coloca sempre o nome do diretor quando se fala de um filme e quando é uma mulher dirigindo uma comédia não se coloca?”, pergunta a realizadora
A outra é a diretora Susana Garcia, irmã de Mônica, que, antes de trabalhar com cinema, era médica radiologista, formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde entrou em segundo lugar.
Embora sua carreira como diretora de longas-metragens não tenha sequer dez anos, Susana bateu um recorde: é a cineasta que mais vendeu ingressos no cinema brasileiro nos últimos 30 anos.
São dela as comédias Minha Vida em Marte (2018), Minha Mãe É Uma Peça 3 (2019), produção nacional mais vista da história, e Minha Irmã e Eu (2023), o primeiro título a ultrapassar a barreira do 1 milhão de espectadores pós-pandemia. Não é, porém, raro que seu nome seja ignorado quando se fala desses filmes.
As razões para que isso aconteça e os sentidos que uma comédia pode abrigar foram os principais assuntos desta entrevista que Susana concedeu a CartaCapital na segunda-feira 7, dia em que seu filme tomou os cinemas e as redes sociais.
Pulso. Estreia na direção, Minha Vida em Marte está entre os dez maiores faturamentos das últimas décadas. Minha Irmã e Eu foi o primeiro filme pós-2020 a passar de 1 milhão de ingressos – Imagem: JMataruna e Redes Sociais
CartaCapital: Você esperava este resultado?
Susana Garcia: Quando cheguei no corte final – e foi dificílimo chegar, porque a versão inicial tinha 2h45 –, falei: “Isso aqui vai ser sucesso, as pessoas só têm que chegar ao filme”. Mas, hoje, para fazer as pessoas irem para o cinema é preciso criar uma relevância, o que nunca é fácil. Mas na pré-estreia de Recife, ao ver a reação do público, pensei: “Vai ter boca a boca”.
CC: Vi o filme numa sessão em que havia, basicamente, mulheres. E todas riam muito, muito. Eu também. E ria de piadas que me pareciam muito femininas. O que há de diferente quando uma mulher dirige uma comédia, gênero sempre dominado pelos homens?
SG: Quase todos os gêneros foram dirigidos sobretudo por homens, né? O que posso dizer é que todos os projetos em que entrei, peguei do zero. Recebo muito roteiro pronto, mas, para decidir estar no set, com aquele bando de gente e aquele dinheiro todo, tem que ser uma história que eu queira muito contar. Neste caso, o projeto surgiu de uma demanda dos seguidores de Ingrid e Mônica, mas, na primeira reunião, nos perguntamos: sobre o que a gente quer falar? Eu queria falar de uma mulher em crise, com dificuldade de se separar, mas que consegue ressignificar a vida. Eu, aos 30 anos, larguei a medicina para trabalhar com cinema. Aos 51, me separei do (ator) Herson Capri, com quem fui casada por 26 anos e tenho três filhos. Nós as três entramos no projeto com muita vontade, verdade e humor. Uma diferença que vejo na minha comédia é que ela não é escrachada. É uma comédia humana. Com mais mulheres dirigindo, a gente amplia as possibilidades do gênero, e isso é um presente para o público.
“Tem uma linguagem, mas ela não vem à frente. Para uma cena de comédia acontecer não posso ficar pirando em câmera (…) O lugar do riso é sempre o da identificação”
CC: Como você descobriu que gostava de fazer comédia?
SG: Minha irmã é comediante e minha mãe sempre teve muito humor, mas eu descobri isso fazendo. Eu descobri, na verdade, que histórias quero contar, e são histórias que vêm muito de dentro, sabe?
CC: Você só dirigiu sucessos, mas me parece que se olha pouco para o seu trabalho. Será que a comédia, quando os atores são muito engraçados, tende a deixar a gente com a sensação de que quem dirigiu não conta muito?
SG: Totalmente! As pessoas acham que, quando se tem um comediante muito bom, a gente vai para o set brincar e fazer um sucesso. E é zero esse lugar: somos operários da arte. Hoje, está claro que esses mesmos comediantes fizeram outros filmes que não foram sucessos. Só que em muitos lugares nem aparece meu nome. É filme da Ingrid e da Mônica. Por que sempre se coloca o nome do diretor quando se fala de um filme e quando é uma mulher dirigindo uma comédia não se coloca? Tem também o lado de eu ser muito na minha, reservada. Eu colocava o filme no mundo e dizia: “Pronto, o filho nasceu”. Ficava feliz com o sucesso, mas não dava entrevista, não falava, porque meu objetivo tinha sido alcançado.
CC: Você falou que faz comédias humanas. Quais seriam outras marcas de seu trabalho como diretora?
SG: Eu acredito muito no roteiro como sendo a alma de um filme. As pessoas vão ao cinema para embarcar numa história e não há história sem um bom roteiro. É um equívoco achar que duas estrelas vão para o set fazer piada e isso vai dar certo. Não vai. Temos várias comédias assim, legais até, mas sem consistência. Então, a primeira coisa, é que trabalho muito, muito no roteiro. Para parecer que aquilo era mesmo uma viagem das duas, foi um ano trabalhando o roteiro – e eu fico à frente disso. Depois, vou buscar a embocadura delas e, nos ensaios, falo: “A cena tá perfeita, mas falta uma coisinha aqui”. Tem uma coisa meio matemática nisso. Meu desafio era o seguinte: as pessoas esperavam delas a espontaneidade dos vídeos para as redes sociais. Muitas vezes, eu tinha que parar a cena e dizer: “Cadê a gostosura?” E a gente combinou: quando eu não cortar, é pra brincar, falar coisas. Repito a cena 1 milhão de vezes e, na edição, vejo o “brutão” – tudo, tudo, tudo, tudo. Tem cena de um minuto com 17 minutos de take.
Comédia humana. Minha Mãe É Uma Peça 3, protagonizado por Paulo Gustavo, foi o segundo longa-metragem de Susana, que largou a carreira de médica para trabalhar com cinema e fazer rir – Imagem: Redes Sociais
CC: O que é a linguagem, no seu cinema?
SG: Quando vou fazer um filme, penso, sim, na beleza estética, na fotografia, no roteiro. Tem uma linguagem, mas ela não vem à frente. Para uma cena de comédia acontecer não posso ficar pirando em câmera. Às vezes vejo filmes e falo: “Cara, essa cena era para ser engraçada, mas o diretor fez todo um movimento de câmera e a cena não aconteceu”. Então, assim, estou a serviço da cena e, nesse sentido, é quase como se o meu trabalho estivesse meio invisível. Mas é tudo muito pensado. Quando elas vão para Sevilha, por exemplo, tenho aqueles drones, aquela amplitude, e o filme fica mais solar. Vou botando o filme mais colorido à medida que elas vão se libertando. Outra coisa importante é que esses grandes comediantes quase enganam a gente. O Paulo Gustavo era craque nisso, porque tudo que ele fazia era bom. Então, às vezes ele estava cansado, fazia aquela ceninha que era engraçada, e eu falava: “Não foi o melhor. Essa cena pode ficar genial”. Isso eu tenho: a sensibilidade de sacar o que vai provocar risada. E não é incrível quando uma sala inteira ri? Eu me arrepio. A sala inteira rindo junto é a música que mais amo ouvir na vida. Ao mesmo tempo, não me vejo fazendo uma coisa escrachada, exagerada. O lugar do riso é sempre o da identificação, de coisas que uma amiga pode fazer com a outra. Ingrid e Mônica têm também uma genialidade que é ir para a cena leves. Elas se divertem como duas crianças. Mas tem hora que eu sou a titia ali: “Não é possível!” E brigo (risos).
CC: Acho que a gente teve uma sequência longa de comédias que foram bem nas bilheterias e ficou parecendo que era tudo uma fórmula. Mas eis que também vieram fracassos…
SG: Pois é. E teve também muito projeto de juntar fulano, sicrano, não sei quem mais com milhões de seguidores e fazer uma viagem. Não dá certo porque não existe uma fórmula. É muito difícil fazer as pessoas rirem e ainda se emocionarem. Rir e chorar são dois sentimentos tão opostos… E o filme está conseguindo. Tem uma coisa que vivi em Minha Mãe É Uma Peça 3 que carrego pra sempre. A gente estava na casa do Paulo Gustavo, passando as cenas, e ele falando, falando, falando e, de repente, sai uma coisa que me faz gargalhar muito. Aí ele olhou pra mim e disse: “Susana, eu vou fazer o Brasil inteiro rir desse jeito, mas, no fundo, o que eu quero é levar amor para a casa das pessoas, é levar o amor de uma mãe por um filho”. A gente usa a comédia pra falar de assuntos sérios, de coisas que são relevantes para as pessoas. E acho que as coisas sobre as quais a gente queria falar em Minha Melhor Amiga vieram num momento em que as mulheres estão querendo ouvir isso, se inspirar e, quem sabe, ressignificar suas vidas. •
Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ação entre amigas’
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Fonte: Carta Capital