Guimarães Rosa merecia melhor
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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A biografia do autor de Grande Sertão: Veredas acumula problemas
Neste 2026, celebramos os 70 anos de publicação de Grande Sertão: Veredas, a obra máxima de João Guimarães Rosa (1908–1967), decerto o livro mais complexo e desafiador jamais escrito em português. Foi uma ótima iniciativa que também neste ano se lançasse João Guimarães Rosa – Biografia, assinada por Leonencio Nossa. Somos um país um tanto pobre em biografias de nossas figuras importantes, de modo que toda novidade na área merece ser comemorada.
Para realizar seu projeto, Leonencio Nossa teve acesso privilegiado a um amplo acervo de documentos dos mais variados tipos, incluindo fotografias raras, e pôde entrevistar pessoas que conviveram com Rosa, o que nos permite apreender um pouco melhor o menino, o pai, o marido, o médico, o soldado, o diplomata e o escritor, ao menos pelo olhar de quem privou de sua intimidade em maior ou menor medida.
Imagem: Ludwig Deutsch e Copacabana Filmes/Cinemateca Brasileira
Infelizmente, porém, a obra acumula problemas que não lhe permitem cumprir por inteiro o papel historiográfico que compete a toda biografia. Narrar uma vida é narrar um período histórico, com tudo o que isso implica de rigor factual e precisão dos dados. Há grande quantidade de falhas textuais, termos usados com sentido equivocado, palavras sobrando ou faltando, trechos confusos, impropriedades gramaticais e puros erros de informação.
Comecemos pela afirmação de que, no século XVIII, “a exploração do ouro permitiu aos reis portugueses (…) expulsar os últimos mouros da Europa” (pág. 42). Ora, os últimos mouros de Portugal foram expulsos em 1249 (século XIII), e os últimos da Europa, no sul da Espanha, em 1492 (século XV), muito antes do ciclo do ouro brasileiro. A cidade francesa de Estrasburgo, na fronteira com a Alemanha, é colocada na “Pomerânia” (pág. 252), mas a Pomerânia fica no lado oriental da Alemanha, é uma região compartilhada com a Polônia. O historiador português Jaime Cortesão (1884–1960) é chamado de “Júlio” Cortesão (pág. 258). O nome de um filósofo ucraniano aparece como Berdiaev, Berdyaev e Berdiaeff (pág. 375). Em 1951, um inquérito investigou as relações do Banco do Brasil com o governo, que o livro coloca no “Palácio do Planalto” (pág. 326), edifício que só viria a ser construído na década seguinte. O tradutor alemão de Rosa, Curt Meyer-Clason (1910–2012), esteve preso no Brasil de 1942 a 1946, e não apenas por “dois anos” (pág. 417). O que significa dizer que o azul é “a cor trazida pelos portugueses das especiarias da Índia” (pág. 398)? O autor alega que Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha (1939–1981), foi “inspirado em Rosa”, quando nada no filme lembra os livros do autor mineiro, sendo o roteiro bem mais próximo de Os Sertões de Euclides da Cunha (1866–1909) e de Vidas Secas de Graciliano Ramos (1892–1953).

Problemas textuais são muitos, difícil relacionar todos aqui. Mas podemos citar, por exemplo, a afirmação de que certo tipo de papel era “um produto produzido” por determinado moinho (pág. 258). O autor transforma em reflexivos verbos que não o são em português: “se convergiam” (pág. 282), “se proliferavam” (pág. 453) e “se fascinou” (pág. 487). Comete o equívoco habitual de atribuir sujeito à locução impessoal tratar-se de: “A linguagem de Rosa não se tratava de ‘nossa língua’” (pág. 380) e “foi essa versão que Graciliano Ramos disse se tratar de uma publicidade de soro antiofídico” (pág. 409).
Lemos que o poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias (1823–1864), foi escrito “duas décadas depois” da carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel I, datada de 1500 (pág. 384)! Em “Rosa cobrava o amigo dividendos por aplicações feitas” (pág. 322), temos dois objetos diretos para um mesmo verbo, coisa inexistente na gramática do português (deveria ser “cobrava do amigo”). Frases mal redigidas complicam o entendimento: “Rosa era o autor do momento de Chico Buarque” (pág. 497) ou “Rosa expressava outra visão sobre o destino do livro no mundo espanhol” (pág. 526), quando “no mundo de língua espanhola” seria uma redação mais adequada. Estranho também é ler que “homens, mulheres e pequenos se juntavam sob as copas frondosas dos pequizeiros para recolher as maçãs verdes caídas no chão (…). A casca grossa era retirada, aproveitava-se o fruto amarelo intenso (…)” (pág. 574), em que maçãs brotam de pequizeiros, têm casca grossa e são amarelas, apesar de verdes… Há também um uso excessivo do pronome “ele”, que poderia ser suprimido muitas vezes sem nenhum prejuízo para a coesão textual.
Há grande quantidade de falhas textuais, termos usados com sentido equivocado, palavras sobrando ou faltando, trechos confusos…
Note-se que todos os nomes que citei aqui vêm acompanhados das datas de nascimento e morte, imprescindíveis em livros de teor historiográfico como uma biografia. Mas no livro de Nossa elas praticamente não aparecem, nem no texto principal nem na seção intitulada “Personagens da vida e da obra de Rosa”.
É pena que uma obra com tantas informações interessantes não tenha recebido do autor e das editoras a revisão minuciosa e o cuidado editorial que merece uma biografia de um dos nossos maiores escritores. Esperemos que as próximas reimpressões resolvam esses problemas. •
*Escritor, linguista, tradutor e professor.
Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Guimarães Rosa merecia melhor’
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Fonte: Carta Capital