Candidato de Flávio Bolsonaro e Nikolas em MG recebeu R$ 900 mil de banqueiro denunciado por fraude
Por Eduardo Goulart — Intercept Brasil
Apoiado pelo senador e presidenciável Flávio Bolsonaro e pelo deputado federal que busca a reeleição Nikolas Ferreira, ambos do Partido Liberal, o PL, o candidato ao governo de Minas Gerais pela mesma sigla, Flávio Roscoe, recebeu uma doação de campanha de R$ 900 mil de Carlos Geo Quick, ex-controlador do Banco Neon – liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central em maio de 2018. Quick virou réu na justiça federal em abril de 2025, denunciado pelo Ministério Público Federal, o MPF, por crimes contra o sistema financeiro nacional, incluindo gestão fraudulenta por meio de operações de crédito fictícias.
Até o dia 9 de setembro, o montante transferido por Quick representava a 21ª maior doação individual de pessoa física em todo o país nestas eleições. Dados declarados ao Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, mostram que a quantia foi repassada em duas parcelas via transferência eletrônica em agosto – uma de R$ 380 mil e outra de R$ 520 mil. Os recursos bancam a campanha de Roscoe no estado, onde ele se reuniu nesta quarta-feira, 9 de setembro, com Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira para uma motociata e comício em Juiz de Fora.
A comitiva bolsonarista tentava realizar o ato na cidade desde 17 de agosto, quando uma tempestade esvaziou a primeira tentativa e forçou um encontro em um ginásio em Belo Horizonte.
Na véspera da nova mobilização desta quarta, Flávio Bolsonaro convocou apoiadores nas redes sociais afirmando esperar o público em Juiz de Fora para uma motocarreata em direção ao centro da cidade, “no local onde o presidente Bolsonaro tomou uma facada de um ex-integrante do PSOL”.
Ao citar o Partido Socialismo e Liberdade, o PSOL, o presidenciável desenterra um vínculo que Adélio Bispo de fato teve com a legenda, mas que é irrelevante para explicar o atentado de 2018 – ele se desfiliou em 2014. As investigações da Polícia Federal concluíram que Bispo sofria de transtorno mental delirante e agiu sozinho.
O vale-tudo pelo estado decisivo
O mau tempo levou o voo do senador a ser desviado para a cidade vizinha de Goianá nesta quarta-feira. De lá, ele partiu para Juiz de Fora de carro, onde chegou no fim da manhã. No centro da cidade, Flávio usou um colete à prova de balas por baixo de uma camiseta amarela idêntica à que Jair Bolsonaro vestia no dia do atentado em 2018.
Carregado nos ombros por um segurança, o parlamentar refez o trajeto do pai pelo cruzamento das ruas Halfeld e Batista de Oliveira. Do alto do trio elétrico, ao lado de Roscoe e Ferreira, Flávio declarou aos eleitores: “Completei o trajeto que ele não conseguiu”.

A aposta no capital político do pai também marcou os vídeos divulgados pela campanha nas redes, nos quais o senador afirma a Roscoe: “Xará, vambora resgatar esse Brasil, quem vence em Minas, vence o Brasil”.
Filiado ao PL em março de 2026, Roscoe é a principal aposta da sigla para tentar consolidar o palanque do partido no segundo maior colégio eleitoral do país, tradicional por decidir as eleições presidenciais. A ofensiva em Minas Gerais coincide com o levantamento da Quaest que apontou Flávio Bolsonaro numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no estado em um cenário de segundo turno.
Ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, a Fiemg, Roscoe se apresenta nas redes como um gestor experiente. Ocorre que o candidato, que enaltece sua capacidade de administração para assumir o governo do estado, tem como seu maior doador um empresário com histórico de sanções no sistema financeiro e que é réu na justiça federal.
Em mensagem enviada por WhatsApp, a assessoria do candidato disse que “a doação foi realizada diretamente ao partido, de forma legal, transparente e devidamente declarada pelo doador”. O comunicado ainda aponta que a relação de Roscoe com Quick “decorre exclusivamente do convívio no meio empresarial de Minas Gerais”. Por fim, a assessoria acrescentou que “a campanha seguirá integralmente financiada por doações privadas, devidamente declaradas, SEM utilização de recursos públicos ou do Fundo Partidário” (leia a nota na íntegra).
A engrenagem da fraude
Carlos Geo Quick e seus sócios comandavam não apenas o Banco Neon, antigo Banco Pottencial, mas também uma outra empresa chamada Pottencial Assessoria e Consultoria, a PAC. Segundo as investigações do MPF, o grupo utilizava a PAC para captar recursos de forma irregular, sem a devida autorização do Banco Central. Foi essa estrutura que forneceu as bases para o golpe contra os investidores.
A fraude funcionava como uma armadilha financeira. Empresas depositavam milhões na conta da PAC com a promessa de rendimentos. O problema acontecia na hora de sacar o dinheiro. Quando o cliente pedia o resgate da aplicação, os controladores não devolviam os fundos da PAC. Em vez disso, eles simulavam a liberação de um empréstimo no Banco Neon no exato valor solicitado pelo investidor.
Com essa manobra, quem ganhava era o banco. Sem saber, a empresa que tentava reaver seu próprio dinheiro era registrada no sistema do Banco Neon como devedora de um empréstimo fictício na modalidade de conta garantida. Ao mesmo tempo, a instituição financeira contabilizava receitas falsas de juros sobre essas dívidas inventadas, inflando artificialmente seu patrimônio para enganar o Banco Central e o mercado financeiro.
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A defesa de Quick disse que “ele não tem relação comercial com o candidato Flávio Roscoe, tendo regularmente doado para sua campanha por acreditar nas suas propostas e o considerar excelente nome para o Governo de Minas Gerais”. Quanto às perguntas sobre as acusações do MPF, os advogados disseram em mensagem conjunta via e-mail que seu cliente “não se manifestará”.
Foi o funcionamento contínuo dessa máquina de fabricar devedores que levou Quick ao banco dos réus. Em março de 2025, o MPF apresentou a denúncia detalhando o esquema. No fim de abril do mesmo ano, a justiça federal em Belo Horizonte aceitou a acusação contra o empresário por crimes como fraudar a gestão do banco, enganar investidores e operar uma estrutura financeira clandestina.
Os candidatos Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira foram procurados pela reportagem, mas não responderam aos questionamentos. O espaço segue aberto.
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Fonte: Intercept Brasil