Índia propõe ampliar comércio liderado por mulheres no BRICS
Por Leonardo Lucena — Brasil 247
247 – A Índia quer trabalhar com os demais integrantes do BRICS para ampliar a presença de mulheres empreendedoras no comércio internacional, com medidas voltadas ao financiamento, à entrada em novos mercados e à criação de regras comerciais previsíveis. De acordo com o The Economic Times, que cita comunicado oficial do governo indiano, o ministro indiano do Comércio e Indústria, Piyush Goyal, apresentou a proposta durante a Conferência de Desenvolvimento Liderado por Mulheres da BRICS Women’s Business Alliance (WBA), em Nova Déli. A cúpula do grupo está marcada para sábado (12) e domingo (13).
O ministro Goyal afirmou que Nova Déli pretende compartilhar com os parceiros do BRICS políticas adotadas pelo país para estimular negócios comandados por mulheres. O ministro dividiu os principais obstáculos enfrentados por empreendedores em três frentes: crédito, acesso a compradores e mercados e segurança nas normas que orientam o comércio.
Ao tratar do financiamento, Goyal citou a expansão da inclusão bancária feminina na Índia. Segundo ele, há cerca de 12 anos grande parte das mulheres, especialmente nas zonas rurais, não possuía conta bancária, patrimônio registrado em seu nome ou histórico de crédito que permitisse contratar empréstimos.
O ministro afirmou que o país abriu desde então quase 300 milhões de contas bancárias para mulheres, ampliou o registro de imóveis em nome delas e criou modalidades de crédito sem garantia para quem deseja iniciar uma atividade econômica, inclusive entre pessoas sem histórico anterior no sistema financeiro.
Goyal também informou que aproximadamente 100 milhões de mulheres das áreas rurais participam atualmente de 9 milhões de grupos de autoajuda, cooperativas ou associações dedicadas a atividades produtivas.
Mais de 30 milhões delas alcançaram renda pessoal superior a 100 mil rúpias, segundo o ministro. O governo indiano chama esse grupo de “Lakhpati Didis” e pretende elevar tanto o número de participantes quanto seus rendimentos.
Mulheres recebem 68% dos empréstimos a pequenos empreendedores
Segundo Goyal, a Índia concedeu aproximadamente 560 milhões de empréstimos a pequenos empreendedores, e mulheres contrataram mais de 68% desse total. O governo busca, segundo ele, ampliar a independência econômica feminina e aumentar sua participação na geração de renda das famílias.
O ministro relacionou essa estratégia ao crescimento da presença feminina no mercado de trabalho. Ele disse que a taxa de participação das mulheres na força de trabalho indiana permanecia próxima de 19% há cerca de uma década e afirmou esperar avanço para 50% ou mais à medida que renda, escolaridade e qualificação aumentem.
Goyal ressaltou que o governo pretende garantir igualdade de oportunidades e instrumentos para que mais pessoas criem empresas ou obtenham renda. Para ele, essa abordagem define o conceito de desenvolvimento liderado por mulheres, em vez de limitar as políticas públicas à condição de beneficiárias.
Ao abordar educação e capacitação, o ministro afirmou que investimentos voltados às mulheres também atingem as famílias e ampliam as perspectivas das crianças. Ele defendeu que programas públicos tratem as mulheres como participantes diretas da transformação econômica do país.
BRICS estuda plataforma comum para comércio internacional
A ampliação do acesso aos mercados internacionais também entrou no centro da proposta indiana. Goyal lembrou que ministros de Comércio e Indústria do BRICS discutiram, em Jaipur, princípios voluntários para avaliar pequenos exportadores.
Segundo ele, instituições financeiras e participantes do comércio não devem analisar essas empresas somente por meio de faturas, pagamentos ou garantias patrimoniais. A avaliação também deve considerar a capacidade produtiva do empreendedor e a evolução do negócio.
Os integrantes do bloco também concordaram, dentro do chamado Consenso de Jaipur, em estudar uma plataforma comum do BRICS para operações de comércio internacional.
Goyal afirmou que a ferramenta poderia conectar demandas por produtos nos países-membros a fornecedores instalados nas demais economias do grupo. Instituições financeiras também poderiam participar desse ambiente e oferecer apoio a mulheres empreendedoras e pequenos negócios.
O ministro defendeu ainda instrumentos digitais comuns para documentos comerciais eletrônicos, notas fiscais, conhecimentos de embarque e declarações aduaneiras.
Na avaliação de Goyal, a digitalização pode reduzir barreiras administrativas e facilitar operações comerciais entre empresas de diferentes integrantes do BRICS.
Delegações empresariais lideradas por mulheres
Outra frente apresentada pelo ministro envolve a presença de empresas comandadas por mulheres em feiras, conferências, exposições e fóruns internacionais.
Goyal sugeriu que os países organizem delegações empresariais femininas por setor. Ele citou como exemplo uma missão formada exclusivamente por mulheres do segmento têxtil, que poderia viajar entre mercados do BRICS para estabelecer contatos comerciais e integrar cadeias produtivas.
O ministro também relacionou essa agenda ao plano de trabalho do grupo sobre cadeias globais de valor. Segundo ele, governos podem ampliar a participação de negócios liderados por mulheres nesses circuitos e criar conexões além dos próprios países do BRICS.
Índia defende previsibilidade nas regras comerciais
Goyal colocou a estabilidade regulatória como outro requisito para a expansão dos negócios. Ele afirmou que empresas precisam de previsibilidade, segurança e condições que estimulem operações comerciais internacionais.
Ao tratar do sistema multilateral, o ministro destacou o compromisso dos integrantes do BRICS com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e com a preservação de espaço para políticas destinadas às economias em desenvolvimento.
“Business cannot be conducted without sufficient predictability and certainty, open borders and an environment that encourages free trade”, afirmou Goyal.
O ministro também associou o crescimento das relações econômicas à diplomacia entre os países.
“Dialogue and diplomacy are the way forward towards a more prosperous future for member countries, partner countries and the world”, declarou.
Comércio de serviços ganha espaço na agenda
Goyal apontou ainda oportunidades no comércio de serviços entre os integrantes do BRICS. Segundo ele, o setor movimenta quase US$ 10 trilhões no mundo, enquanto as trocas de serviços entre os países do grupo ainda ocupam parcela reduzida desse mercado.
O ministro defendeu maior presença feminina em atividades ligadas à mobilidade, aos serviços e à economia digital. Ele também mencionou pequenas e médias empresas como potenciais beneficiárias da integração entre os mercados do bloco.
Na avaliação do governo indiano, ferramentas digitais podem aproximar prestadores de serviços de consumidores localizados em outros integrantes do BRICS e reduzir obstáculos à internacionalização de negócios menores.
Compras públicas e produtos regionais
Goyal também apresentou experiências internas da Índia. Entre elas, citou o Government e-Marketplace, plataforma utilizada por órgãos nacionais, estaduais e locais para compras públicas de bens e serviços.
Segundo o ministro, o sistema oferece visibilidade às oportunidades de contratação e reserva atenção especial aos empreendimentos liderados por mulheres.
Outra iniciativa mencionada por Goyal foi o programa One District, One Product. A Índia reúne cerca de 780 distritos e identifica produtos com potencial econômico em cada uma dessas regiões para apoiar sua promoção comercial.
O governo também começou a levar o modelo ao setor de serviços. Goyal citou a experiência do estado de Uttar Pradesh com a identificação de culinárias locais e avaliou que produtos, serviços e gastronomia regional podem conquistar consumidores estrangeiros.
Estados e administrações locais usam essas iniciativas para transformar distritos em polos exportadores, dentro de uma estratégia que busca integrar pequenos negócios e empreendedoras indianas aos mercados internacionais e às cadeias comerciais do BRICS.
Fonte: Brasil 247