O que são as drogas crumble e pineapple e por que têm esses nomes?

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A Gazeta

Apreensão de 3,1 kg de haxixes dos tipos Crumble e Pineapple durante abordagem da PRF na BR 101, em Mimoso do Sul

Apreensão de 3,1 kg de haxixes dos tipos Crumble e Pineapple na BR 101
| PRF

“Crumble” é o nome de um doce de origem britânica, feito com frutas cobertas por uma mistura de manteiga, farinha e açúcar, assada até ficar crocante. Já “pineapple” significa “abacaxi” em inglês. Apesar da relação com a culinária, os termos não têm nada a ver com comida no caso de uma apreensão de drogas no Espírito Santo.

Os nomes identificam parte dos 3,1 quilos de haxixe apreendidos recentemente pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) na BR101, em Mimoso do Sul, no Sul do Espírito Santo. A droga estava escondida no painel de um carro. Mas o que esses termos significam?

Para entender, primeiro é preciso saber o que é o haxixe. O consultor e especialista em Ciências da Cannabis André Julião explica que se trata de um concentrado produzido a partir da resina da cannabis. Essa resina é rica em estruturas chamadas tricomas, onde estão os canabinoides, entre eles o THC, principal composto psicoativo da planta.

A resina é separada do restante da planta, principalmente das flores, e dá origem a um produto concentrado em canabinoides. A extração pode ser feita de diferentes formas, com ou sem o uso de solventes.

Mas por que droga “crumble”?

Haxixe crumble

Haxixe crumble
Divulgação | Iberohemp

Segundo André Julião, “crumble” é o nome dado a uma das texturas que um concentrado de cannabis pode apresentar. O produto pode ser obtido por meio de uma extração que utiliza gás butano como solvente, processo conhecido como BHO.

A extração pode resultar em um produto com alta concentração de THC e textura seca e quebradiça. É justamente essa aparência que deu origem ao nome, uma referência à sobremesa britânica cuja cobertura lembra uma farofa doce.

André alerta para os riscos de produtos de origem desconhecida, principalmente quando há uso de solventes durante a produção. “Produtos de procedência desconhecida podem representar um risco maior, especialmente quando não há garantia de que o processo de remoção do solvente tenha sido realizado de forma adequada.”

Além dos riscos relacionados ao produto, o próprio processo de produção pode ser perigoso. O butano é altamente inflamável e pode provocar incêndios e explosões.

Laboratório da Polícia Científica do ES

Laboratório da Polícia Científica do ES
Divulgação | PCIES

De acordo com o perito oficial da Polícia Científica do Espírito Santo, César de Sousa Netto Rezende, esse tipo de droga pode apresentar concentração maior de THC. “Quando você faz uma purificação, você remove outras substâncias e, automaticamente, aquilo que fica aumenta de concentração”, explica.


Ainda segundo o perito, o “crumble” ainda aparece pouco nas análises feitas pela Polícia Científica no Espírito Santo, em comporação à maconha e ao haxixe comum, encontrados com muito mais frequência.

Os riscos à saúde

Em entrevista à reportagem, o psiquiatra e especialista em dependência química e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Valdir Campos, alerta que concentrados com alta quantidade de THC podem aumentar os riscos à saúde e o potencial de dependência. 

Entre os possíveis efeitos, estão:

  • prejuízos à memória e à atenção;
  • ansiedade;
  • crises de pânico;
  • delírios e alucinações.

O consumo também pode agravar transtornos preexistentes em pessoas predispostas.

E “pineapple”?

Variação de haxixe conhecida como "Pineapple"

Variação de haxixe conhecida como “Pineapple”
Divulgação | Hempati

No caso de “pineapple”, o termo pode ter significados diferentes. André Julião explica que o nome não identifica um método específico de extração. No universo da cannabis, pode indicar uma genética ou variedade da planta. Nesse caso, o termo estaria relacionado à cannabis usada no preparo. Foi esse o tipo de droga apreendida em Mimoso do Sul.

Já a Polícia Científica do Espírito Santo usa “pineapple” para identificar outro tipo de produto. Nos materiais analisados pela corporação, o nome está associado a um comprimido artesanal à base de MDA, uma droga sintética com efeito estimulante que pode provocar alucinações. O comprimido também é conhecido como “abacaxizinho”.

Droga sintética conhecida como "Pineapple" ou "Abacaxiziho"

Droga sintética conhecida como “Pineapple” ou “Abacaxiziho”
Divulgação | Polícia Militar de SP

Segundo o perito César de Sousa Netto Rezende, o “pineapple” tem aparecido com frequência entre os comprimidos artesanais enviados para análise pela Polícia Científica no último ano. O material é pequeno, amarelo e tem formato de abacaxi.

Por que são chamadas de ‘drogas gourmet’

Segundo o psiquiatra e especialista em dependência química Valdir Campos, o termo é uma estratégia de marketing do tráfico. A expressão é usada para apresentar determinadas drogas como produtos mais sofisticados ou “premium”.

Para o médico, essa apresentação pode levar o usuário a acreditar, equivocadamente, que está diante de uma droga mais segura, mesmo sem conhecer a potência ou a procedência do produto.

A embalagem, o design e os nomes sofisticados criam uma ilusão de qualidade e segurança, como se o usuário estivesse consumindo um produto de alto padrão. Na realidade, porém, a substância pode ter potência perigosa e pureza desconhecida.
Valdir Campos | Psiquiatra e especialista em dependência química

Os riscos não terminam no consumo: a dependência pode comprometer a saúde e a vida cotidiana. Para quem precisa de ajuda, há serviços gratuitos no Espírito Santo.

Serviços

Precisa de ajuda?

Se você ou alguém próximo enfrenta problemas relacionados ao uso de álcool ou outras drogas, há serviços gratuitos no Espírito Santo.

Portal Acolhe ES:  os serviços públicos de atendimento para dependência química podem ser encontrados no site do programa, que lista unidades e contatos em diversas cidades capixabas.

CAPS AD: os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas oferecem atendimento especializado e podem ser procurados diretamente, sem necessidade de encaminhamento.

Narcóticos Anônimos (NA): oferece reuniões presenciais e virtuais para pessoas que têm ou acreditam ter problemas com drogas. 

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Fonte: A Gazeta

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