Quanto vale o voto das mulheres?
Por Priscilla Brito — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Priscilla Brito é cientista política, feminista e escritora.
Há alguns anos, trabalhei na criação de uma campanha de conscientização sobre a importância do voto. A campanha tinha como mote: “Quanto vale o seu voto? Meu voto vale muito! Vale direitos!”. A ideia era incentivar a escolha de candidaturas que estivessem comprometidas com os direitos das mulheres, que se dispusessem a defender pautas como acesso à educação e à saúde, e que se comprometessem com a democracia e com políticas públicas para a população.
Essas ideias parecem bem abstratas, mas resumem as coisas básicas da vida cotidiana: se vamos conseguir uma consulta com um médico que possa responder que ideia é essa que a gente sente na barriga; se as filhas da vizinha vão conseguir vaga na creche; se vão aprovar uma lei que te libere do serviço se você tiver que levar um filho para vacinar.
Os nossos direitos são bem concretos e eles devem guiar nossas escolhas de voto.
A democracia é importante especialmente para quem não tem acesso às rodinhas do poder. Sabe essas histórias, como a do filho de um político que consegue o empréstimo milionário para um projeto sem ter que comprovar nada? Ou da esposa do ministro que defende o banqueiro por uns milhões? São pessoas que provavelmente teriam poder independentemente da forma do sistema de governo.
Agora, pessoas comuns, como eu e como vocês, dependemos de quem possa nos representar e do nosso trabalho cidadão de cobrar — e, para isso, ter espaços que garantam a nossa participação. Para quem vive do salário, quem faz as contas para pagar os boletos e se preocupa com as emergências, um voto vale muito. O voto da família, dos amigos, do povo da igreja, do trabalho, mais ainda.
Uma política de ocupação de espaços por mulheres, por si só, não significa que essas representantes vão lutar por mais direitos. A cientista política estadunidense Anne Phillips provocou o debate com o texto “De uma política de ideias a uma política de presença?”, em que defende que um sistema político mais justo depende da incorporação das ideias tanto quanto da presença.
O caso das eleições deste ano no DF é interessante, uma vez que temos a atual governadora, Celina Leão (PP), à frente das pesquisas, e quatro fortes candidatas às duas vagas do Senado: Leila do Vôlei (PDT), Erika Kokay (PT), Michelle Bolsonaro (PL) e Bia Kicis (PL).
Ter tantas mulheres bem posicionadas na disputa significa que os direitos das mulheres estão avançando?
A resposta curta é: não necessariamente. A presença de mulheres no topo das pesquisas no Distrito Federal — seja disputando o Palácio do Buriti ou o Senado Federal — é um marco, mostra que as barreiras de acesso começam a ruir. É a materialização da “política de presença”. No entanto, como nos lembra Anne Phillips, presença não é sinônimo automático de programa.
As candidatas em evidência no DF ocupam espectros ideológicos antagônicos e defendem visões de mundo, de Estado e de sociedade profundamente diferentes. Enquanto eleitoras e eleitores, cair na armadilha de achar que “votar em mulher” resolve o problema por si só é esvaziar o sentido da democracia. As cotas e os mecanismos de paridade cumprem o papel fundamental de garantir que os espaços de poder deixem de ser um clube exclusivo de homens.
Mas o que define se os nossos direitos vão avançar é a política de ideias: saber a quem essas candidaturas servem, quais creches elas pretendem construir, de onde virá o dinheiro para a saúde pública e se o compromisso delas é com a maioria que paga boleto ou com os privilégios de sempre. No fim das contas, a presença importa, mas o compromisso com a nossa vida concreta importa ainda mais.
*Priscilla Brito é cientista política, feminista e escritora.
**Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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Fonte: Brasil de Fato