‘Siga o dinheiro’: PF rastreia o caminho das emendas de Kicis, Pollon e Mario Frias para Dark Horse

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Por Aquiles LinsBrasil 247

247 – Seguir o dinheiro é uma das linhas centrais da nova etapa da investigação da Polícia Federal sobre recursos públicos destinados a entidades e empresas ligadas a Karina Gama, dona da produtora responsável pelo filme Dark Horse. O rastreamento revela um percurso que conecta emendas dos deputados Bia Kicis (PL-DF), Marcos Pollon (PL-MS) e Mario Frias a pagamentos e projetos em diferentes estados.

As informações são da jornalista Miriam Leitão, em O Globo, que teve acesso à decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável por autorizar a operação deflagrada nesta quinta-feira (10). O documento detalha a movimentação de milhões de reais e as relações entre organizações e pessoas jurídicas que passaram a ser examinadas pelos investigadores.

O mapa traçado pela apuração passa pelo Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Ceará. Entre os pontos que chamaram a atenção está a destinação de R$ 1 milhão por Marcos Pollon e de outros R$ 150 mil por Bia Kicis à Academia Nacional de Cultura (ANC), presidida por Karina Gama.

Os recursos foram direcionados ao projeto “Heróis Nacionais”, em São Paulo. A distância entre as bases eleitorais dos parlamentares e o local de execução do projeto tornou-se um dos pontos examinados na investigação: Pollon foi eleito pelo Mato Grosso do Sul, enquanto Bia Kicis representa o Distrito Federal.

Dino aponta aparente desconformidade

Na decisão que autorizou a ação da PF, Flávio Dino registra que essa circunstância, por si só, “revela aparente desconformidade com a exigência de absoluta vinculação federativa estabelecida nas decisões supracitadas”.

A regra estabelecida pelo STF determina, em linhas gerais, que deputados e senadores destinem emendas ao estado pelo qual foram eleitos, admitindo exceção para projetos de âmbito nacional cuja execução ultrapasse as fronteiras daquela unidade da Federação.

O critério faz parte das medidas adotadas pelo Supremo para aumentar a transparência e a rastreabilidade das emendas parlamentares. Em decisões anteriores, Dino também determinou mecanismos destinados a permitir o acompanhamento do dinheiro desde sua indicação até a aplicação pelo beneficiário.

Rota chega a empresa beneficiada por emenda de Mario Frias

O rastreamento não termina nas emendas destinadas à Academia Nacional de Cultura. A investigação alcançou também a Editora e Distribuidora de Livros HD Cultural, apontada na documentação como integrante da rede de pessoas jurídicas sob análise.

A empresa foi beneficiada por uma emenda parlamentar individual de autoria do deputado Mario Frias, ex-secretário Especial da Cultura do governo Jair Bolsonaro.

Em 24 de março deste ano, a HD Cultural recebeu R$ 1.368.528,20, tendo como ente pagador o Fundo Municipal de Saúde de Piracicaba, em São Paulo.

O histórico financeiro identificado pelos investigadores mostra que a mesma empresa havia recebido outros R$ 1.298.694,38 em 30 de dezembro de 2025. Nesse caso, os recursos vieram do Fundeb e foram pagos pelo Fundo Municipal de Educação de Icó, no Ceará.

Somados, os dois pagamentos citados na documentação chegam a cerca de R$ 2,67 milhões.

Do Ceará a São Paulo

É justamente o caminho percorrido pelo dinheiro que acrescenta uma nova dimensão ao caso. As informações reunidas na investigação mostram recursos relacionados a diferentes pontos do país e convergindo para empresas, organizações ou projetos vinculados ao núcleo investigado.

Além das emendas de parlamentares eleitos pelo Distrito Federal e Mato Grosso do Sul destinadas a projeto em São Paulo, a apuração encontrou movimentações envolvendo recursos pagos no Ceará e em São Paulo.

A Controladoria-Geral da União (CGU) identificou outro elemento considerado fora do padrão ao analisar as relações comerciais estabelecidas no conjunto de operações.

Segundo a documentação, o ICB, sediado em São Paulo, solicitou orçamento à Cometa Livraria, cuja sede fica em Fortaleza, no Ceará.

A CGU classificou a movimentação como uma “atipicidade”, destacando que a contratação foi buscada fora de São Paulo “a despeito da ampla oferta de editoras e fornecedores do setor editorial existentes no estado de São Paulo”.

Endereços também entram no radar

Há ainda uma conexão adicional entre as pessoas jurídicas mencionadas na investigação: a Cometa Livraria funciona no mesmo endereço da HD Cultural Ltda., justamente a empresa que recebeu recursos relacionados à emenda de Mario Frias.

A coincidência passou a integrar o conjunto de elementos analisados pelos órgãos de fiscalização juntamente com os pagamentos, contratos, beneficiários e relações societárias.

Segundo O Globo, a decisão de Dino descreve uma rede de empresas na qual aparecem vínculos considerados suspeitos entre pessoas jurídicas e indícios de que algumas delas possam ter sido constituídas para atender a contratos previamente firmados.

A investigação busca agora reconstruir integralmente esse circuito financeiro e esclarecer a finalidade dos pagamentos e o destino final dos recursos públicos.

É esse percurso que conecta as diferentes frentes do caso: de emendas apresentadas por parlamentares de Brasília e Mato Grosso do Sul a projetos em São Paulo; de recursos públicos pagos no Ceará a empresas relacionadas ao núcleo investigado; e de fornecedores situados em diferentes estados a endereços compartilhados entre pessoas jurídicas.

A operação faz parte do inquérito sobre possíveis desvios de emendas parlamentares relatado por Flávio Dino. Caberá à investigação determinar se as conexões encontradas correspondem a irregularidades e qual foi a participação de cada pessoa física ou jurídica mencionada no circuito dos recursos.

Fonte: Brasil 247

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