Onde a fumaça chega, a informação também precisa chegar

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Por Vanessa RibeiroJOTA

No período de seca, quando as queimadas se concentram, nos deparamos com uma névoa constante sobre nossas cabeças. Já parou pra pensar sobre o que ela é e quais são as suas consequências? Trata-se do que os cientistas chamam de material particulado, que, em grandes concentrações, pode causar sérios problemas à nossa saúde, principalmente se for respirado por vários dias consecutivos.

Sabemos quando a fumaça cobre uma cidade. Sentimos o cheiro entrar pela janela. Vemos o céu mudar de cor e percebemos quando a respiração se torna mais difícil. Mas, para milhões de pessoas que vivem em comunidades rurais, territórios indígenas, quilombos, reservas extrativistas, dentre outras unidades de conservação, e até mesmo cidades sem sistemas de monitoramento, quase sempre falta algo fundamental: dados sobre o ar que chega aos pulmões.

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A poluição atmosférica não respeita limites municipais, de propriedades ou de categorias fundiárias. A fumaça atravessa rios, florestas e territórios. Viaja por centenas de quilômetros carregada pelo vento. E o que começa como uma queimada em determinado ponto pode, horas depois, impactar quem vive longe dali.

Na Amazônia, essa dinâmica ganha uma dimensão ainda maior. O fogo associado ao desmatamento, à abertura e limpeza de áreas e aos períodos de seca pode transformar a qualidade do ar em uma ameaça que permanece invisível por longos períodos.

Em 2024, períodos de seca extrema e queimadas fizeram com que estados da Amazônia registrassem 138 dias de ar considerado nocivo à saúde, segundo análise do IPAM. Mas há um paradoxo: justamente onde os impactos podem ser mais intensos, o monitoramento ainda é escasso.

Segundo o Relatório Anual de Acompanhamento da Qualidade do Ar 2025, há cerca de 570 estações de monitoramento em todo o Brasil. Dessas, apenas 12 estão localizadas em terras indígenas. Isso significa que sabemos pouco sobre o ar que as pessoas respiram no Brasil. E aquilo que não é medido dificilmente se torna prioridade. Apesar dos avanços na legislação da qualidade do ar nos últimos anos e de todos os esforços do governo e de diversas instituições, grande parte do território nacional ainda não possui sistemas de monitoramento.

A RedeAr nasce justamente para preencher essa lacuna. A iniciativa pretende construir uma rede colaborativa de monitoramento da qualidade do ar capaz de alcançar onde as redes tradicionais ainda não chegam.

O projeto parte da integração de redes de monitoramento de diferentes pesquisadores e instituições que atuavam de forma isolada, como a Rede de Monitoramento da Qualidade do Ar do Acre, a primeira da Amazônia. Porém, como os sensores utilizados são importados, viu-se a necessidade de desenvolver não só uma plataforma nacional de monitoramento, mas também um sensor que utilize tecnologia nacional, de baixo custo e adaptado às condições da Amazônia.

O novo dispositivo foi desenvolvido pelo IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) em parceria com a UFPA (Universidade Federal do Pará) e a Fundação Guamá. Ele é capaz de medir material particulado fino, especialmente o PM2.5 (cerca de 30 vezes mais fino que um fio de cabelo), responsável por sérios problemas de saúde; além de medir temperatura e umidade, permitindo acompanhar as condições atmosféricas em intervalos curtos, praticamente em tempo real.

O objetivo é fornecer instrumentos de monitoramento para comunidades e instituições que conhecem o território, vivem os efeitos das mudanças climáticas e precisam de informações para tomar decisões.

A expansão do monitoramento promovido pela RedeAr dialoga diretamente com iniciativas como a Rede Conexão Povos da Floresta, que já conecta mais de 2.700 comunidades amazônicas por meio de infraestrutura de energia e de internet. A ideia é aproveitar redes existentes para fazer com que os dados ambientais circulem onde a informação sobre a qualidade do ar historicamente não circulou.

Quando dados ambientais são combinados com informações sobre território, fogo, clima e saúde, uma nova possibilidade aparece: a compreensão não só de onde está a poluição, mas de quem está sendo exposto, em que intensidade, por quanto tempo e em quais circunstâncias.

Esse cruzamento pode ajudar a revelar conexões que permanecem ocultas quando cada informação é analisada isoladamente. Um pico de material particulado pode estar associado à ocorrência de queimadas. A persistência da fumaça pode ser explicada pelas condições meteorológicas. Os episódios de exposição podem, posteriormente, ser analisados em conjunto com informações sobre atendimentos por doenças respiratórias.

É assim que um número deixa de ser apenas um número e passa a contar uma história sobre o território. Essa história pode orientar a prevenção, a saúde pública, a fiscalização, as políticas ambientais e as estratégias de proteção comunitária.

Fonte: JOTA

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