A disputa pela interpretação da crise no STF e as campanhas em rede
Por Rodrigo Martins — Carta Capital
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Uma crise não produz custos uniformes. Seus efeitos dependem também de quem consegue atribuir responsabilidade e deslocar o foco da discussão
Sem debates confirmados entre os principais candidatos, a eleição não perde conflito: perde um espaço comum de confronto. O possível cancelamento, inclusive do debate da Globo, favorece uma disputa conduzida em ambientes mais controlados pelas próprias campanhas. Nesse cenário, a questão não é apenas quem apresenta melhores argumentos, mas quem consegue fazer sua interpretação dos acontecimentos circular com mais força, sobretudo quando esses episódios envolvem uma crise institucional.
As últimas pesquisas revelam por que essa disputa importa. Na Quaest de 7 de setembro, os sete pontos que separam Lula de Flávio Bolsonaro no primeiro turno desaparecem no segundo: ambos chegam a 41%, empate numérico. A vantagem inicial de Lula, onde persiste, é real, mas pode induzir a uma leitura equivocada: parte dela expressa a fragmentação da oposição, não uma superioridade equivalente na escolha binária, obrigatória, no segundo turno.
Flávio não precisa ser o candidato preferido da direita para se tornar seu ponto de convergência contra Lula. Na Quaest de 2 de setembro, 60% dos entrevistados não o consideram o melhor nome que esse campo poderia apresentar. Entretanto, entre os eleitores de direita não bolsonaristas, 86% escolhem seu nome no segundo turno. Sua competitividade ultrapassa, portanto, a adesão ao bolsonarismo: a rejeição ao adversário produz uma convergência eleitoral maior que o entusiasmo pelo candidato.
Trata-se de uma polarização herdada. Lula permanece competitivo apesar da insatisfação com a economia. Flávio reúne votos além de seu núcleo identitário no segundo turno. Entre ambos, os eleitores de Augusto Cury expõem os limites dessa coordenação: no Datafolha, dividem-se entre os dois candidatos e a recusa de escolher qualquer um. Esse eleitorado não constitui uma reserva automática da direita. É justamente onde o voto por exclusão ainda encontra resistência.
A geografia reforça as dificuldades de Lula. No Sudeste, a Quaest de 2 de setembro registra Flávio com 43% e Lula com 35% no segundo turno, contrapondo-se à ampla liderança petista no Nordeste. Em São Paulo, a vantagem de Tarcísio de Freitas sobre Fernando Haddad – 42% a 27% na pesquisa divulgada em 8 de setembro – acrescenta um palanque estadual forte à oposição. Não significa transferência automática de votos, mas oferece estrutura territorial à disputa nacional.
As fragilidades da campanha lulista
A centralidade da segurança pública completa esse quadro. A violência aparece como principal preocupação no relatório da Quaest de 2 de setembro. Para o governismo, isso exige mais que divulgar realizações econômicas: exige responder à percepção de desordem. Segurança e crise institucional podem ser assuntos distintos, mas uma campanha consegue aproximá-los sob uma mesma narrativa de perda de controle. Essa aproximação é política, não uma equivalência entre os problemas.
A economia é o segundo assunto mais importante para o eleitor brasileiro nesta eleição, mas a segurança ainda tem o dobro de saliência. Aqui, outra fragilidade de Lula: 49% dos eleitores avaliam que a economia piorou, enquanto apenas 19% que dizem que melhorou (Quaest).
É neste ponto que as diferentes arquiteturas de campanha ganham relevância. Não me proponho a discutir sobre o mérito das “narrativas sobre a crise institucional” ou das “percepções sobre a saudabilidade da economia”, mas a relevância desses tópicos é inconteste na presente campanha presidencial.
Como as campanhas de Lula e Flávio operam
O contraste entre as campanhas pode ser resumido assim: Lula opera uma campanha tradicional que incorporou o digital; Flávio procura organizar uma campanha digital que incorpora televisão, rua e política tradicional. Não se trata de ausência da esquerda nas redes, mas da lógica que articula produção, circulação e mobilização.
A comunicação governamental e partidária de Lula enfatiza realizações. A operação de Flávio combina conteúdo próprio com instrumentos destinados à redistribuição por apoiadores. Na ágora digital, produzir conteúdo não basta. O diferencial está na distribuição. Uma mensagem identificada como propaganda encontra resistências diferentes daquela encaminhada por um amigo, um pastor ou um influenciador de confiança. O remetente pode funcionar como uma validação social. A campanha deixa de falar apenas ao eleitor e passa a abastecer pessoas que falam com ele. É uma infraestrutura social, não somente tecnológica.
A TV Celular, lançada pela campanha de Flávio com programação contínua no YouTube e investimento anunciado de 3 milhões de reais, expressa essa lógica. Seu produto não é apenas a transmissão de 24 horas, mas os cortes que abastecem outros canais e podem ser compartilhados pelos apoiadores.
Mais que uma televisão alternativa, é uma estrutura de produção para circulação distribuída, uma tentativa de organizar o networking em escala industrial. Isto com Cerimedo e suas fazendas de bots correndo por fora.
Comparar apenas impulsionamento, comum nas campanhas anteriores, é insuficiente. Entre maio e o início de agosto, o PT investiu 2,3 milhões de reais em anúncios da Meta, contra 835,5 mil do PL. Mas o partido de Flávio Bolsonaro também direcionava usuários a canais próprios e oferecia material pronto para publicação. Comprar audiência e recrutar distribuidores são objetivos diferentes. O dinheiro compra exposição, mas não garante automaticamente os vínculos pelos quais uma mensagem adquire credibilidade.
O monitoramento da Datrix ajuda a dimensionar o contraste. Em agosto, Flávio alcançou 46,08 pontos no indicador digital, contra 35,88 de Lula. Mesmo sob a repercussão das controvérsias envolvendo o Banco Master e o filme Dark Horse, suas menções negativas caíram de 45,4% para 36,5%, enquanto as de Lula ficaram em 46,8%.
Os impactos eleitorais dos escândalos
Esses indicadores não são votos, mas mostram que ampliar alcance e reduzir desgaste são operações distintas. Flávio demonstrou, naquele período de vazamentos dos áudios com Vorcaro, até este ponto da campanha, capacidade de combinar ambas.
Essa capacidade não significa imunidade a escândalos. Um levantamento posterior da própria Datrix identificou deterioração da conversa sobre os dois candidatos, embora por caminhos diferentes: Lula era associado ao STF e a Alexandre de Moraes; Flávio recebia críticas pelo Dark Horse, mas também manifestações favoráveis à sua ofensiva contra Moraes. O ponto analítico é este: uma crise não produz custos uniformes. Seus efeitos dependem também de quem consegue atribuir responsabilidade e deslocar o foco da discussão.
Ao explorar as acusações de André Mendonça contra a direção da Polícia Federal, Flávio tenta fundir Lula e Moraes numa mesma representação do poder. Para Lula, a condição de incumbente cria uma restrição adicional: precisa defender sua candidatura e preservar a autoridade das instituições que sustentam a governabilidade. Flávio pode apresentar-se como adversário desse arranjo, mesmo tendo suas próprias explicações a prestar. A assimetria não está na ausência de vulnerabilidades de um lado, mas na capacidade de transformar a vulnerabilidade do outro em explicação geral da crise.
A circulação também é transnacional. Na Conservative Political Action Conference (CPAC), Eduardo Bolsonaro apresentou o irmão a uma plateia conservadora americana. Flávio pediu pressão diplomática sobre as instituições brasileiras, vinculou sua expectativa de vitória à liberdade nas redes e à contagem dos votos e apresentou a perspectiva de uma parceria estratégica com Washington. O episódio documenta como controvérsias domésticas são levadas a públicos políticos aliados no exterior, ampliando os circuitos da campanha para além das fronteiras nacionais.
O risco institucional aparece quando a disputa sobre responsabilidades específicas abre uma avenida de possibilidades para mais interferências dos Estados Unidos nas eleições brasileiras, seja por meio das sanções da Lei Magnitsky ou por outro instrumento.
A crise institucional ajuda a formar um clima perigoso de desconfiança generalizada nas instituições e, potencialmente, pode até enfraquecer a confiança do eleitor no próprio processo eleitoral.
Numa eleição menos exposta ao confronto direto (possivelmente sem debates), a disputa acerca de quem atravessa melhor os escândalos ficam submetida também aos filtros das campanhas em rede. Ganha quem consegue transformá-los na confirmação de uma visão de mundo ou narrativa dos fatos. Nesse ponto, a comunicação digital deixa de ser apenas publicidade eleitoral: torna-se uma forma de organizar a percepção do poder e de questionar sua legitimidade.
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Fonte: Carta Capital