Por Carlos CasteloBrasil 247

A corrida começou com uma informação irrelevante.

— Boa noite — disse o passageiro.

— Boa noite — respondeu o motorista. — Mas isso depende da definição de “boa”.

O passageiro entrou no carro. E já deveria ter desconfiado.

No painel havia um celular, um carregador e um exemplar amassado de um livro de filosofia (Sobre a Brevidade da Vida, Sêneca) com mais marcações do que um regulamento de condomínio.

O carro arrancou.

— O senhor é professor?

— De Filosofia.

— E dirige Uber?

— Sim.

— Uma mudança e tanto de carreira…

— Concordo. Mas Sócrates também passava o dia conversando com estranhos na rua.

A avenida estava congestionada.

— Veja esse trânsito — comentou o motorista.

— Terrível!

— Platão diria que estamos vendo apenas sombras do verdadeiro tráfego.

— Como é que é?

— Em algum lugar deve existir a Forma Perfeita do Congestionamento. Isto aqui é apenas uma cópia.

O passageiro olhou para a fila interminável de carros.

— Se isso é imperfeito, não quero conhecer a versão ideal.

— Nem eu.

Pararam no sinal.

— O curioso — continuou o motorista — é que todos querem ultrapassar o carro da frente. Nietzsche chamaria isso de vontade de potência.

— Achei que fosse pressa.

— A filosofia tem a vantagem de transformar qualquer defeito em conceito.

O sinal abriu. Seguiram.

Uma motocicleta passou entre os carros numa velocidade que parecia incompatível com a legislação e com a Física.

— Corajoso — disse o passageiro.

— E não deve ser leitor de Kant.

— Como assim?

— Kant acreditava em limites.

O passageiro começou a gostar da corrida. Era como assistir a um TEDx.

Passaram por uma fila enorme diante de uma repartição pública.

— Schopenhauer adoraria isso.

— A fila?

— Claro. Para ele, a vida oscila entre desejo e frustração. A fila consegue entregar os dois ao mesmo tempo.

O trânsito voltou a parar. O motorista suspirou.

— Heidegger falava sobre o ser-no-mundo.

— E o que ele diria daqui?

— Que estamos sendo-no-trânsito.

— É verdade. E por que o senhor dirige?

O motorista ficou calado por um instante.

— Porque a universidade me ensinou tudo sobre a condição humana. E o Uber me permite confirmar.

— E qual foi a conclusão?

— Que Aristóteles tinha razão.

— Sobre o quê?

— O homem é um animal social.

— Isso eu já sabia.

— Mas ele esqueceu de acrescentar que também é um animal que atravessa a rua olhando para o celular.

Como para ilustrar a tese, um pedestre surgiu exatamente naquela hora, caminhando sem levantar os olhos da tela.

O motorista freou.

— Evidência empírica — comentou.

Já estavam chegando ao destino. O aplicativo calculou o valor da corrida. O passageiro comentou:

— Sabe, essa foi a conversa mais interessante que tive nos últimos tempos.

— Fico feliz.

Pararam diante de um prédio. O passageiro abriu a porta, mas não desceu.

— Posso fazer uma última pergunta?

— Claro.

— Depois de estudar tantos pensadores, o que o senhor aprendeu sobre a vida?

O homem refletiu por alguns segundos. Então disse:

— Aprendi que Platão procurava a verdade, Nietzsche procurava superá-la, Heidegger tentava descrevê-la. E eu continuo em busca de um passageiro que não bata a porta com muita força ao sair.

Fim da corrida. O passageiro saiu do carro e fechou a porta com o cuidado de quem acabara de receber a definição mais prática da filosofia. E foi ser no mundo.

Fonte: Brasil 247

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