Aos 19 anos, jovem estuda entre uma corrida e outra como entregador de aplicativo e cursa a faculdade que ninguém da família fez
Por Carlos Emanoel Freires dos Santos — Catraca Livre
Às 6h40, antes de ligar o aplicativo de entregas, Lucas já está com o caderno aberto sobre a mesa da cozinha. Ele tem 19 anos, mora com a mãe e dois irmãos mais novos e começou a faculdade no início do ano. É o primeiro da família a chegar ao ensino superior. Como precisa ajudar nas despesas de casa, encontrou nas entregas de bicicleta a forma de continuar estudando sem abandonar a renda.
O dia começa antes das primeiras corridas
Lucas acorda cedo porque descobriu que, depois que começa a trabalhar, dificilmente consegue estudar por muito tempo seguido. Antes de sair, revisa o conteúdo da aula anterior e separa no celular os textos que pretende ler durante os intervalos.
Por volta das 8h, coloca a mochila térmica nas costas e segue para uma região com muitos restaurantes. A primeira parte da manhã costuma ser mais tranquila. Quando não aparece pedido, ele encosta a bicicleta, procura um banco ou uma sombra e abre o material da faculdade.
Entre uma entrega e outra, ele lê o que consegue
Nem sempre o intervalo dura o suficiente para terminar uma página. Às vezes, Lucas lê três parágrafos e o celular toca. Em outras, consegue ficar 20 minutos parado e aproveita para responder exercícios ou assistir a uma parte da aula gravada.
Com o tempo, ele criou uma rotina simples para não perder esses pequenos períodos:
- baixa os textos antes de sair de casa;
- separa capítulos curtos para ler durante as pausas;
- usa fones apenas quando está parado;
- anota dúvidas no celular para pesquisar depois;
- deixa trabalhos maiores para fazer à noite.
A faculdade era um plano que parecia distante
Na família de Lucas, ninguém havia cursado faculdade. A mãe trabalha como diarista e o pai, que mora em outra cidade, deixou a escola ainda jovem. Durante boa parte do ensino médio, ele imaginava que começaria a trabalhar em tempo integral assim que terminasse os estudos.
A ideia mudou quando um professor o incentivou a tentar uma vaga. Lucas fez a inscrição sem contar para muita gente porque dizia ter medo de criar expectativa. Quando recebeu a confirmação, a mãe foi a primeira pessoa para quem ligou.
Ela comemorou, mas os dois sabiam que entrar seria apenas o começo. Transporte, alimentação, materiais e contas da casa continuariam existindo.
O aplicativo virou a forma de manter o curso
Lucas começou nas entregas pouco antes do início das aulas. No começo, trabalhava quase todos os dias até tarde. Depois percebeu que chegava cansado demais para acompanhar o curso e passou a organizar melhor os horários.
Agora tenta concentrar as corridas nos períodos de maior movimento, principalmente no almoço e no início da noite. Em dias de prova, reduz o tempo conectado. Quando precisa comprar algum material ou ajudar mais em casa, aumenta a jornada durante alguns dias.
O trabalho continua cansativo, principalmente quando chove ou quando precisa subir longas distâncias de bicicleta. Mesmo assim, ele diz que a possibilidade de escolher quando fica disponível permite ajustar a rotina de acordo com as aulas.
Nem todo dia termina com tudo feito
Há noites em que Lucas chega em casa decidido a estudar e adormece antes de terminar o primeiro exercício. Em outras, percebe que passou o dia inteiro trabalhando e quase não conseguiu abrir o material.
Foi nessa fase que ele deixou de tentar cumprir uma rotina perfeita. Em vez de esperar por duas ou três horas livres, passou a usar qualquer intervalo disponível. Dez minutos antes de uma corrida, meia hora depois do almoço ou alguns minutos no ônibus para a faculdade começaram a fazer diferença.
Também aprendeu a não levar a bicicleta para todos os lugares. Quando tem aula presencial, prefere trabalhar perto do campus e encerrar as corridas com antecedência para conseguir chegar sem pressa.
Ser o primeiro da família mudou a forma como ele enxerga o curso
Lucas conta que a faculdade deixou de ser apenas um objetivo individual. Os irmãos começaram a perguntar como funcionam as aulas, quanto tempo dura o curso e o que é necessário para entrar. A mãe, mesmo dizendo que entende pouco das matérias, costuma perguntar sobre as provas e lembrar os horários das aulas.
Ele ainda não sabe exatamente onde estará profissionalmente nos próximos anos. Também não romantiza a rotina. Trabalhar na rua e estudar ao mesmo tempo significa abrir mão de descanso, reorganizar gastos e aceitar que algumas semanas serão mais difíceis do que outras.
Mas, aos 19 anos, Lucas já conseguiu fazer algo que parecia improvável alguns anos antes: transformar os intervalos entre entregas em tempo de estudo e ocupar a primeira cadeira de uma faculdade na história da própria família.
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Fonte: Catraca Livre