A virada é possível
Por Daniel Samam — Brasil 247
A virada de Lula é possível. A pesquisa Quaest desta quarta-feira, 21 de outubro desmonta a ideia de que a eleição esteja resolvida. O empate técnico, a queda da rejeição do presidente e a ampliação da indecisão mostram que ainda há uma disputa a travar. Até domingo, 25 de outubro, a campanha e seus apoiadores precisam manter, de forma permanente, a mobilização nas ruas, as conversas para virar votos e a atuação nas redes sociais. Nesse esforço, a desconstrução política de Flávio Bolsonaro tem papel legítimo, desde que baseada em fatos, posições públicas e cobranças verificáveis. Trata-se de transformar uma oportunidade eleitoral em maioria nas urnas, combinando crítica, esperança, engajamento e participação.
Os dados sustentam essa possibilidade sem autorizar euforia ou salto alto. Na pesquisa estimulada, Flávio aparece com 45% e Lula, com 44%. A diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Na espontânea, ambos têm 40%, enquanto a indecisão passou de 7% para 14%. Sem contar a redução da rejeição de Lula, de 53% para 47%. Isso não equivale a adesão automática ao presidente. Significa, porém, que existem escolhas em aberto e resistências que podem ser superadas. É o retrato de uma eleição na qual o convencimento ainda pode fazer diferença.
Por isso, expor politicamente Flávio Bolsonaro é parte do confronto entre projetos de poder. O eleitor tem direito de conhecer o candidato além dos cortes favoráveis e das peças publicitárias. Deve poder comparar suas propostas, examinar contradições e cobrar respostas. A reação digital da campanha de Lula e o crescimento de buscas negativas sobre o adversário não prova mudança de voto, mas evidencia a importância da disputa pela informação. As ações nas redes devem continuar até domingo, com checagem, contexto e responsabilidade. Uma desconstrução consistente está em revelar o que a propaganda procura esconder, sem fabricar aquilo que não consegue demonstrar.
Entretanto, a crítica ao adversário precisa caminhar junto com a mobilização positiva. 33 milhões de brasileiros e brasileiras que não compareceram no primeiro turno e quase seis milhões de votos brancos e nulos. Ninguém pode presumir que esses eleitores pertençam a uma candidatura. Seu afastamento, porém, mostra que participação e convencimento são questões centrais. É nesse ponto que os vira-votos, as mobilizações públicas e as conversas cotidianas ganham relevância. Virar um voto é ouvir objeções, apresentar argumentos e oferecer razões concretas para a escolha. A campanha de Lula precisa associar a crítica a Flávio à defesa de direitos, renda, serviços públicos e compromissos de governo. Para sair da dúvida, o eleitor precisa enxergar não apenas o risco de uma alternativa, mas o sentido da outra.
A avaliação é que ainda há tempo para uma virada. A Quaest permite levar essa possibilidade a sério, sem transformá-la em promessa. Até domingo, não há espaço para desmobilização nem para a ilusão de que uma tendência favorável, por si só, depositará votos nas urnas. A tarefa é manter presença, debate e disposição para convencer, nas ruas e nas redes, respeitando a liberdade de cada eleitor e as regras eleitorais. A desconstrução de Flávio deve esclarecer; a defesa de Lula deve oferecer horizonte; a mobilização deve tornar a participação uma prioridade. A eleição continua aberta, e essa abertura exige ação. A virada não está garantida. Está ao alcance da disputa democrática.
Fonte: Brasil 247