Entidades acionam PGR contra Vorcaro por suspeita de tráfico de mulheres
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – Entidades encaminharam à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma notícia-crime solicitando a investigação de suspeitas de tráfico de mulheres e exploração sexual envolvendo o empresário Daniel Vorcaro. O pedido tem como base mensagens atribuídas ao empresário e a um promotor de eventos, além de informações sobre o deslocamento de estrangeiras, incluindo refugiadas ucranianas, para encontros realizados em diferentes países.
Segundo a coluna do jornalista Leonardo Sakamoto, no UOL, os diálogos levantam suspeitas sobre as condições em que as mulheres eram recrutadas, transportadas e mantidas em eventos privados, especialmente diante de referências à situação de vulnerabilidade de uma jovem que havia deixado a Ucrânia em meio à guerra.
Um dos episódios destacados ocorreu em 7 de novembro de 2023, quando o promotor informou a Vorcaro sobre a presença de três refugiadas ucranianas. O empresário teria respondido: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”.
Dias depois, segundo o material apresentado, o organizador teria encaminhado informações do passaporte de uma das mulheres para incluí-la em um voo com o grupo para o Rio de Janeiro. Ao explicar a situação da jovem, afirmou que ela “não pode voltar pra Ucrânia pq os pais dela acham melhor não”.
As conversas posteriores indicam que a condição de refugiada e a ausência de alternativas seguras de deslocamento eram conhecidas pelos envolvidos.
Em 14 de dezembro de 2023, ao ser questionado sobre quantas estrangeiras ainda estavam disponíveis, o promotor respondeu: “1 só. Ela não tem pra onde ir. Estão bombardeando a cidade dela”.
Ele acrescentou que a jovem havia enfrentado uma viagem de 14 horas de ônibus para sair da Ucrânia e que sua mãe enviava gravações dos bombardeios que atingiam a cidade onde vivia.
Em outra mensagem, o organizador relatou que havia convencido a mulher a permanecer, embora ela pretendesse buscar refúgio na Itália.
“Segurei ela pq ela ia sair pra se refugiar na Itália […] E ela ainda pode entrar pra nossa agência! Gata e novinha!”, escreveu, segundo os diálogos reproduzidos na reportagem.
O episódio é um dos pontos centrais das suspeitas apresentadas à PGR, por envolver uma estrangeira deslocada por um conflito armado e cuja situação de vulnerabilidade era expressamente mencionada nas conversas.
Mensagens tratavam mulheres como “escravas”
Outro elemento destacado na notícia-crime é a linguagem utilizada pelos envolvidos para se referir às mulheres que participavam dos eventos.
Em diferentes mensagens, o promotor empregou expressões como “Escravinha doutrinada”, “Vou já escravizar ela pra hoje e fazer trabalhar pra gente aí” e “Escravas. Se quiser levo 2 do Rio”.
Em outro diálogo, escreveu: “Passa a pikinha em geral surubinha. Tinha que ter levado umas escravas”.
Vorcaro, por sua vez, teria afirmado: “Essas meninas escravas são demais”.
Embora o emprego dessas expressões não comprove, isoladamente, a existência de tráfico de pessoas ou trabalho em condições análogas à escravidão, os diálogos integram o conjunto de elementos apresentados pelas entidades para justificar a abertura de uma investigação.
As mensagens também indicam que, em abril de 2024, Vorcaro teria decidido dispensar mulheres ucranianas e russas, mesmo depois de o promotor recordar que a guerra na Ucrânia continuava.
Eventos em Londres, Dubai e outras cidades entram no pedido
A notícia-crime relaciona encontros realizados em São Paulo, Rio de Janeiro, Londres, França, Roma e Dubai. Segundo o material citado pela reportagem, mulheres eram deslocadas entre diferentes localidades para participar de eventos organizados por uma consultoria.
Um dos episódios ocorreu em Londres, em abril de 2024, quando 99 mulheres teriam sido levadas para trabalhar em um evento que contou com a presença de autoridades de Brasília.
Antes de outro encontro na capital britânica, o responsável pela consultoria teria informado que os celulares de todas as participantes seriam recolhidos.
A referência à retirada dos aparelhos também aparece entre os elementos que merecem apuração, uma vez que eventual restrição à comunicação pode ser relevante para esclarecer as condições de permanência e a liberdade de movimentação das participantes.
A reportagem, contudo, não estabelece que todas as mulheres mencionadas tenham sido vítimas de tráfico ou que a participação nos eventos tenha ocorrido mediante coerção.
Faturas de consultoria somam cerca de US$ 70 milhões
A dimensão financeira das atividades também integra as informações reunidas pela reportagem.
Segundo o UOL, foram identificadas 21 faturas emitidas pela consultoria entre abril de 2024 e março de 2025, com valores que, somados, chegam a aproximadamente US$ 70 milhões.
Os documentos foram endereçados à gestora Moriah Asset e descreviam despesas relacionadas a “eventos, hospitalidade, hospedagem e fretamentos”.
Já os gastos referentes às mulheres que participavam de encontros realizados no Brasil seriam cobrados de outra empresa, a Prime You.
O volume financeiro e a utilização de diferentes empresas para o pagamento das despesas são aspectos que podem ser examinados para esclarecer a organização dos eventos, a contratação dos serviços e a destinação dos recursos.
A existência das faturas, por si só, não demonstra a prática de crimes. Sua relevância para a investigação dependerá da identificação dos serviços efetivamente prestados e das circunstâncias em que as mulheres foram contratadas e transportadas.
Entidades diferenciam prostituição voluntária de exploração
Um ponto enfatizado pelas organizações responsáveis pela notícia-crime é que o pedido de investigação não tem como objetivo criminalizar mulheres que exercem voluntariamente a prostituição.
O documento distingue a atividade sexual voluntária praticada por adultos, que não constitui crime por si só no Brasil, de situações que envolvam exploração por terceiros, coerção ou outras condutas previstas na legislação penal.
“A prática de prostituição por mulheres estrangeiras ou em condição de refugiadas não configura, por si só, indício de tráfico”, afirma o texto encaminhado à PGR.
A distinção é relevante porque a legislação brasileira sobre tráfico de pessoas considera, entre outros elementos, o recrutamento, o transporte e o acolhimento de pessoas mediante grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, com determinadas finalidades de exploração.
A eventual ocorrência dessas práticas exige a análise das circunstâncias concretas, incluindo o consentimento das participantes, suas condições de trabalho, a possibilidade de deixar os eventos e a existência de mecanismos de controle ou aproveitamento de situações de vulnerabilidade.
O pedido apresentado pelas entidades busca justamente esclarecer se os episódios descritos nas mensagens e nos documentos financeiros ultrapassaram os limites de relações voluntárias e configuraram condutas criminosas.
Caberá às autoridades competentes avaliar os elementos apresentados, verificar a necessidade de novas diligências e determinar se existem fundamentos para a instauração de uma investigação formal. Até que os fatos sejam apurados, as acusações permanecem no campo das suspeitas, sem constituir comprovação de responsabilidade criminal.
Investigação preliminar e posição da defesa
De acordo com o UOL, a Polícia Federal já abriu uma investigação preliminar para examinar possíveis irregularidades na contratação de mulheres estrangeiras para os eventos.
As entidades solicitam ainda a identificação e a proteção das possíveis vítimas, a análise pericial das mensagens, o rastreamento dos pagamentos e a cooperação internacional para esclarecer os deslocamentos realizados.
Em manifestação anterior ao UOL, Vorcaro negou veementemente ter explorado ou desrespeitado mulheres e questionou a autoria, a autenticidade e o contexto de parte do material divulgado. A Allure Eventos também negou envolvimento nas práticas relatadas e afirmou não ter mantido relação societária, comercial ou contratual com o empresário.
Fonte: Brasil 247