Goiânia 93 anos: a cidade planejada para o “Agroluxo”

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Por Redação — Jornal Opção

Goiânia 93 anos: a cidade planejada para o “Agroluxo”

A construção de Goiânia visou o progresso e a ocupação das regiões Centro Oeste e Norte. Como marco de uma transformação, sua edificação operou uma metamorfose no campo da psicologia social. O esgotamento precoce da atividade mineradora colonial e o isolamento geográfico haviam legado à população um sentimento coletivo de frustração e estagnação. Uma cidade moderna devolveria aos goianos a confiança coletiva, superando a nostalgia do passado decadente pela projeção do futuro próspero.

Esta modernidade manifestava-se na própria materialidade urbana. Os edifícios projetados em Art Déco, estilo que estava no auge da moda, trazia para a nova capital o que havia de mais moderno para a arquitetura da época.

A construção de Goiânia, conduzida pelo Estado, projetava uma “trindade econômica” estruturada para atuar como centro comercial, financeiro e industrial. Mas até os anos 1960, a cidade apresentava traços fortemente ligados à economia agrária. Seu impulso ocorreu após a construção de Brasília, motivado por diversos programas federais.

Ao longo da história, Goiânia foi desconfigurando seu plano piloto e permitindo a penetração do capital no território, criando zonas com maior valorização e a criação de áreas luxuosas, onde se instalavam serviços de alto padrão.

O crescimento demográfico expandiu os parcelamentos urbanos, culminando em uma proliferação de loteamentos. A população de baixa renda ficou nas áreas periféricas e os que podiam pagar, nas áreas originalmente projetadas para a cidade. O transbordamento da população culminou no crescimento de cidades limítrofes e a criação da Região Metropolitana (RMG), instituída em 1992 com 12 municípios que, em 2018, chegou a 21, com população total de mais de 2,7 milhões (Censo 2022-IBGE).

Nas últimas décadas, a expressiva riqueza gerada pelo agronegócio passou a repercutir, de forma intensiva, na morfologia urbana da RMG. Esse excedente de capital busca canais diversificados de investimentos no meio urbano, manifestando-se de forma vigorosa no mercado imobiliário e no comércio, ambos de alto padrão. Esta dinâmica contemporânea fundamentou a cunhagem do conceito socioeconômico de “Agroluxo”: termo que designa o fenômeno econômico e cultural pelo qual a riqueza gerada, nos setores primário e agroindustrial, do interior é convertida em consumo de altíssimo padrão na capital.

Impulsionada por grandes produtores rurais, fundos de investimentos e empresários dos setores de insumos e logística agrícola, Goiânia consolida-se como a vitrine urbana e financeira deste “agroluxo”. Esse afluxo de capitais direcionados ao consumo de luxo atrai, para a RMG, investimentos de marcas globais que antes se concentravam, de forma exclusiva, no eixo econômico do Sudeste brasileiro.

E assim Goiânia chega aos 93 anos cercada de glamour, mas, em maior parte, de desigualdades. Sim, temos muito a comemorar, mas os motivos para se preocupar são ainda maiores. Vida longa para Goiânia e que a responsabilidade dos governantes seja suficiente para elaborar e executar planejamentos urbanos que não perpetue a segregação e, ao contrário, construa uma cidade inclusiva para todos os públicos.

Marcos Bittar Haddad é economista, doutor em Desenvolvimento Econômico, pesquisador do INCT Observatório das Metrópoles (Núcleo Goiânia)

Marcos Bittar Haddad | Foto: Divulgação

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Fonte: Jornal Opção

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