EUA afirmam que Ramagem violou leis de imigração e estava ilegalmente no país
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi detido nos Estados Unidos por violar a legislação migratória do país. Segundo informações da Agência Pública, divulgadas pelo UOL nesta quarta-feira (21), o ex-deputado permaneceu em território estadunidense após o vencimento de seu visto de turista, situação que motivou sua prisão pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE), em Orlando, na Flórida.
A detenção ocorreu em abril, mas Ramagem foi libertado apenas dois dias depois, sem pagamento de fiança. A rapidez da soltura, seguida de manifestações públicas de agradecimento ao governo de Donald Trump e de uma medida diplomática contra um policial federal brasileiro envolvido na operação, levanta questionamentos sobre as circunstâncias do tratamento dispensado ao ex-diretor da Abin pelas autoridades estadunidenses.
Libertação sem fiança e agradecimentos a Trump
De acordo com a reportagem, Ramagem foi preso pelo ICE, órgão subordinado ao Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, por ter ultrapassado o período autorizado de permanência no país.
Apesar da infração migratória, ele deixou a custódia em 15 de abril, apenas dois dias depois da prisão. Segundo Paulo Figueiredo, aliado do bolsonarismo que afirmou prestar assistência ao ex-deputado por meio de sua consultoria de imigração, a Immigrex, não houve pagamento de fiança.
A situação chama atenção porque imigrantes detidos normalmente precisam comparecer perante um juiz de imigração para solicitar liberdade mediante fiança. No caso de Ramagem, os jornalistas responsáveis pela investigação não localizaram qualquer petição judicial relacionada a esse procedimento.
No mesmo dia da libertação, Figueiredo publicou uma mensagem de agradecimento ao presidente estadunidense.
“Obrigado, Presidente Trump e todos na administração”, escreveu no X, em 15 de abril.
Eduardo Bolsonaro também agradeceu a Trump e ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, pela libertação do ex-diretor da Abin.
O deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL, afirmou que Rubio participou das articulações para acelerar a soltura. Segundo ele, sem essa intervenção, o procedimento teria levado pelo menos duas semanas.
Ramagem já havia mencionado apoio do governo estadunidense
As declarações dos aliados se somam a manifestações anteriores do próprio Ramagem, que afirmou contar com o conhecimento e o apoio de autoridades dos Estados Unidos durante sua permanência no país.
Em novembro de 2025, depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou sua prisão no Brasil, o ex-diretor da Abin publicou um vídeo no qual afirmou estar em território estadunidense com o conhecimento do governo local.
“Nas palavras até do governo americano para mim: ‘Que bom que temos um amigo que está em segurança a salvo aqui nos Estados Unidos’. Então a gente tem esse apoio dos norte-americanos”, declarou Ramagem na ocasião.
A afirmação indica que o ex-deputado apresentava sua permanência nos Estados Unidos como uma situação conhecida pelas autoridades estadunidenses, embora a posterior detenção pelo ICE tenha ocorrido justamente por uma irregularidade em sua condição migratória.
Estados Unidos afastaram policial federal brasileiro após prisão
Outro episódio destacado pela investigação ocorreu em 20 de abril, cinco dias depois da libertação de Ramagem.
Naquela data, o Departamento de Estado dos Estados Unidos suspendeu o credenciamento do policial federal brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava como oficial de ligação da Polícia Federal em Miami, em cooperação com o ICE.
Carvalho havia participado dos trabalhos que permitiram localizar e deter Ramagem. Após a operação, entretanto, o governo estadunidense determinou seu afastamento das funções no país.
A justificativa apresentada pelo Departamento de Estado foi de que autoridades estrangeiras não poderiam utilizar mecanismos migratórios estadunidenses para contornar procedimentos formais de extradição.
“Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos”, escreveu um assessor do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, em publicação no X.
O comunicado acrescentou: “Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro envolvido deixe o nosso país por tentar fazer isso”.
A mensagem foi compartilhada pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, dando publicidade à posição do governo Trump sobre a atuação do policial federal brasileiro.
Paulo Figueiredo reagiu à medida com uma publicação dirigida ao agente afastado: “tchau, querido”.
Consultor de imigração afirmou não saber como localizar Ramagem
A reportagem também procurou Paulo Figueiredo, que havia declarado em diferentes ocasiões que sua empresa, a Immigrex, estava auxiliando Ramagem em questões migratórias.
Questionado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), Figueiredo afirmou não saber como localizar o ex-deputado e disse que não poderia falar em nome da consultoria.
A resposta contrasta com suas manifestações anteriores sobre a assistência prestada ao ex-diretor da Abin e com o agradecimento público feito à administração Trump após a libertação.
Os episódios revelam uma sequência de decisões envolvendo autoridades migratórias e diplomáticas dos Estados Unidos: a prisão de Ramagem por permanência irregular, sua libertação sem pagamento de fiança, os agradecimentos de aliados a integrantes do governo Trump e, posteriormente, a retirada do credenciamento do policial federal brasileiro que colaborou para sua localização.
Embora essas circunstâncias tenham provocado questionamentos sobre uma possível intervenção política, as informações divulgadas não demonstram, por si só, qual mecanismo administrativo ou judicial permitiu a libertação de Ramagem, nem comprovam que Trump ou Rubio tenham determinado pessoalmente sua soltura.
Fonte: Brasil 247