Gatos preferem caixas pequenas até quando elas são apenas desenhadas no chão: cientistas explicam por que o espaço apertado atrai o animal

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Por Tamiles Santos Brito — Catraca Livre

Uma caixa de papelão costuma ser suficiente para conquistar a atenção de um gato, mas alguns felinos vão além: também se acomodam dentro de quadrados marcados com fita adesiva no chão. O comportamento chamou a atenção de pesquisadores, que investigaram se os animais reagiam apenas ao espaço físico ou se também percebiam formas sugeridas visualmente. Um estudo publicado em 2021 encontrou evidências de que gatos podem responder até a contornos que parecem formar um quadrado, mesmo quando as linhas não estão realmente desenhadas.

Um estudo investigou por que gatos se acomodam em quadrados feitos com fita e até em formas ilusórias. Entenda o experimento e suas limitações.

Por que os gatos entram até em quadrados desenhados no chão?

A preferência dos gatos por caixas e espaços delimitados já é conhecida por quem convive com esses animais. Um esconderijo pode oferecer proteção visual, permitir que o felino observe o ambiente com menos exposição e criar um local previsível para descansar. Mas um quadrado feito com fita adesiva não tem paredes, teto nem barreiras físicas: o gato continua completamente exposto ao ambiente.

Foi justamente essa diferença que despertou a curiosidade dos pesquisadores. Em um estudo publicado na revista científica Applied Animal Behaviour Science, os cientistas investigaram se os gatos também se acomodariam dentro de figuras bidimensionais, incluindo uma ilusão de ótica. O tema se relaciona à preferência por caixas como refúgios para gatos, mas a experiência com formas desenhadas procurou responder a uma questão diferente: como esses animais interpretam os contornos que enxergam?

Como os cientistas testaram a atração por formas que não existem?

O experimento foi conduzido remotamente durante a pandemia de Covid-19, com a participação de tutores que prepararam figuras no chão de suas casas e registraram o comportamento dos animais. Os estímulos incluíam um quadrado real, formado por linhas de fita, e o chamado quadrado de Kanizsa, uma ilusão visual criada por figuras parciais que fazem o cérebro perceber um contorno inexistente. Também havia uma configuração de controle, que não sugeria o mesmo quadrado.

Mais de 500 tutores demonstraram interesse inicial, mas apenas 30 concluíram todas as etapas do experimento. Entre esses participantes, nove gatos escolheram pelo menos um dos estímulos segundo o critério definido pelos pesquisadores: sentar ou permanecer em pé com as quatro patas dentro do contorno por pelo menos três segundos. O número reduzido de participantes que completaram todas as etapas é uma limitação importante para interpretar os resultados. Ainda assim, o estudo ofereceu uma maneira original de investigar a percepção visual felina dentro de casa.

Gatos enxergam um quadrado onde não existe uma linha contínua? Saiba como a ilusão de Kanizsa foi usada para estudar a percepção visual dos felinos.

O que é a ilusão de Kanizsa e o que ela revela sobre os gatos?

A ilusão de Kanizsa acontece quando elementos visuais separados são organizados de modo que pareçam formar uma figura completa. No caso do quadrado, partes de círculos posicionadas estrategicamente criam a impressão de quatro cantos e de um contorno que não foi efetivamente desenhado. O cérebro humano costuma interpretar essa composição como uma forma fechada, mesmo sem uma linha contínua ao redor dela.

No experimento, os gatos selecionaram o quadrado ilusório com frequência semelhante à do quadrado real e mais vezes do que a figura de controle. Os autores interpretaram o resultado como evidência de que os felinos podem responder a contornos ilusórios, assim como fazem diante de formas delimitadas de maneira convencional. O artigo científico “If I fits I sits: A citizen science investigation into illusory contour susceptibility in domestic cats” apresenta os procedimentos e os resultados da investigação. Isso não prova que os gatos compreendam conscientemente a figura como uma caixa física, mas indica que a percepção de contornos pode influenciar seu comportamento.

O estudo prova que os gatos se sentem mais seguros dentro de qualquer quadrado?

Não. A pesquisa avaliou a escolha de figuras no chão, e não mediu diretamente a sensação de segurança ou a redução do estresse provocada por esses desenhos. A explicação para a preferência por caixas reais pode envolver abrigo, controle visual do ambiente e conforto, mas não é possível concluir que um contorno plano ofereça os mesmos benefícios de um esconderijo com paredes. O comportamento também pode variar conforme o temperamento, a experiência e o interesse de cada gato.

Os próprios pesquisadores apontaram a necessidade de repetir o experimento em condições mais controladas e com maior número de animais. Para os tutores, o resultado é uma curiosidade sobre a visão felina, não uma recomendação para substituir caixas e esconderijos por desenhos no chão. Oferecer locais seguros, permitir que o gato escolha onde descansar e observar mudanças persistentes no comportamento continuam sendo cuidados mais úteis para o bem-estar do animal do que presumir que todo quadrado desenhado será interpretado da mesma maneira.

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Fonte: Catraca Livre

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