Comentário: O Japão deve enfrentar seu passado, não reviver o espectro do militarismo
Por Brasil 247 — Brasil 247
Pessoas segurando cartazes participam de uma manifestação em frente ao edifício da Dieta Nacional, em Tóquio, no Japão, em 29 de maio de 2026. (Xinhua/Jia Haocheng)
Tóquio, 19 out (Xinhua) — Mais de 80 anos após a Segunda Guerra Mundial, o Japão enfrenta uma questão fundamental: aprenderá com a catástrofe do militarismo e permanecerá comprometido com a paz, ou permitirá que o revisionismo histórico e a crescente expansão militar enfraqueçam os fundamentos de sua trajetória no pós-guerra?
As recentes iniciativas da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, e de outras figuras políticas de alto escalão em relação ao Santuário Yasukuni, um símbolo do passado militarista do Japão, trouxeram essa questão novamente ao centro das atenções. No sábado, Takaichi enviou uma oferenda ritual ao santuário na qualidade de primeira-ministra, enquanto diversos membros do gabinete e legisladores visitaram o local ou fizeram oferendas semelhantes durante o ritual de outono.
O controverso santuário homenageia criminosos de guerra da Classe A condenados ao lado dos mortos em combate do Japão, tornando-se, há muito tempo, um motivo de preocupação para países e regiões que sofreram com a agressão japonesa.
Esses atos não são meras manifestações privadas de luto. Quando uma primeira-ministra em exercício faz uma oferenda em sua capacidade oficial, o gesto carrega, inevitavelmente, um peso político. Isso levanta questionamentos sobre como os líderes japoneses encaram a conduta do país durante a guerra e se compreendem, de fato, as sensibilidades históricas de seus vizinhos.
Este ano marca o 80º aniversário do início dos Julgamentos de Tóquio, que responsabilizaram criminalmente os líderes japoneses da época da guerra por suas ações. Quatorze criminosos de guerra da Classe A condenados estão consagrados no Yasukuni. Para nações e regiões que sofreram sob a agressão japonesa, as visitas e oferendas rituais realizadas por autoridades japonesas de alto escalão levantam questões fundamentais: será que o Japão enfrentou, de forma genuína, seu passado bélico e reconheceu suas responsabilidades históricas?
A controvérsia mais recente surgiu no momento em que o Japão, sob a liderança de Takaichi, conduz uma ampla revisão de suas políticas de segurança nacional. O governo planeja reformular os três principais documentos de segurança do país até o final deste ano, o que poderá redefinir suas futuras capacidades militares e sua postura em matéria de segurança.
Em meio a um rápido aumento dos gastos militares, o Japão tem se afastado ainda mais das restrições políticas adotadas no pós-guerra. Em abril, o governo revisou os Três Princípios sobre a Transferência de Equipamentos e Tecnologia de Defesa, eliminando a proibição da exportação de armas letais.

Pessoas se reúnem em frente ao prédio do Parlamento, em Tóquio, no dia 19 de abril de 2026, para protestar contra as tentativas do governo da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi de revisar a constituição pacifista do país, defendendo a manutenção do Artigo 9. (Xinhua/Jia Haocheng)
A imprensa japonesa também noticiou que o governo pode alterar a redação dos Três Princípios Não Nucleares durante a revisão da política de segurança, além de considerar a possibilidade de discutir a introdução de submarinos movidos a energia nuclear.
Quando a intensificação do fortalecimento militar coincide com gestos que parecem minimizar a responsabilidade pelos atos cometidos durante a guerra, a orientação política e de segurança do Japão exige um exame rigoroso. A orientação pacifista adotada no pós-guerra, consagrada na Constituição, moldou, por décadas, a percepção regional sobre o papel do país. Qualquer desvio fundamental dessa trajetória deve ser submetido a um debate público transparente e a uma análise minuciosa.
O que a região necessita não é de revisionismo histórico acompanhado de uma expansão militar desenfreada, mas sim de medidas práticas para a construção de confiança, diálogo contínuo e respeito ao direito internacional.
O povo japonês, que também foi arrastado para o abismo pelo militarismo, tem um interesse profundo em garantir que seu país jamais retome esse caminho. As lições da história não representam obstáculos ao futuro do Japão; ao contrário, são salvaguardas essenciais para evitar a repetição de erros do passado.
Oitenta e um anos após o fim da guerra, os líderes japoneses precisam compreender que nenhum pretexto justifica tentativas de absolver criminosos de guerra condenados, ocultar atrocidades cometidas durante o conflito ou distorcer fatos históricos. Essas ações correm o risco de comprometer a reconciliação do pós-guerra e acelerar a remilitarização do Japão.
O Japão deve refletir profundamente sobre seu histórico de agressão, assumir suas responsabilidades relativas ao período de guerra e agir com prudência em questões que envolvem o Santuário Yasukuni e outros temas históricos. Uma avaliação realista do passado e um compromisso inabalável com a paz são fundamentais para evitar a repetição de tragédias históricas e para assegurar uma paz e estabilidade duradouras na Ásia.
Fonte: Agência Xinhua — https://portuguese.news.cn/20261021/1c12fdccaf3a424384011c815a25b6ca/c.html
Fonte: Brasil 247