Marcos Coimbra: “Flávio Bolsonaro colocou em risco o que tinha de mais precioso”

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Por Dafne Ashton — Brasil 247

247 – O sociólogo e especialista em pesquisas eleitorais Marcos Coimbra avalia que o desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) no debate presidencial promovido pela Band pode representar um ponto de inflexão na disputa do segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em entrevista ao Boa Noite 247, Coimbra afirmou que a estratégia de confronto adotada pelo candidato do PL pode comprometer justamente o apoio dos eleitores que não fazem parte de sua base ideológica e cuja adesão é necessária para conquistar a Presidência da República.

“Flávio Bolsonaro colocou em risco o que ele tinha de mais precioso”, afirmou Coimbra, ao analisar a postura do candidato durante o confronto televisivo. Segundo ele, a agressividade pode mobilizar os setores mais identificados com o bolsonarismo, mas tende a produzir uma reação diferente entre os eleitores que ainda avaliam suas escolhas ou que podem reconsiderar o voto.

O especialista recorreu ao conhecimento acumulado em pesquisas qualitativas para explicar por que o comportamento de Flávio pode ter consequências eleitorais. Coimbra lembrou uma orientação do publicitário Duda Mendonça, responsável por campanhas presidenciais, que sintetizava a reação dos eleitores diante de candidatos que adotavam estratégias de ataque: “Quem bate perde”.

De acordo com Coimbra, essa máxima não se refere aos segmentos que já apoiam um candidato independentemente de seu comportamento. Seu significado está relacionado à reação dos eleitores que não possuem identificação partidária consolidada e que observam os debates para formar ou confirmar suas opiniões.

“Eu duvido que isso produza efeito na massa do eleitorado. Produz um efeito altamente positivo na meia dúzia de radicais daquele lado”, declarou. Para ele, a tentativa de desestabilizar o adversário pode satisfazer os apoiadores mais mobilizados, mas não necessariamente contribui para ampliar a votação.

Coimbra considera que Flávio Bolsonaro adotou uma estratégia inspirada no influenciador Pablo Marçal e no presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Na avaliação do sociólogo, o candidato procurou reproduzir gestos, formas de expressão e interrupções destinadas a impedir que Lula desenvolvesse seus argumentos.

O resultado, segundo ele, foi a exposição de características que podem dificultar a aproximação com setores do eleitorado que não compartilham desse estilo de atuação política.

“Eu acho que ele se tornou uma figura, uma caricatura de si mesmo”, afirmou.

O sociólogo argumentou que Flávio poderia ter se beneficiado de uma postura menos confrontadora. Como vinha demonstrando resistência nas pesquisas eleitorais, sua candidatura não precisava necessariamente assumir riscos durante o debate. Uma apresentação voltada à exposição de propostas, segundo Coimbra, poderia preservar o apoio já conquistado sem provocar questionamentos adicionais sobre sua capacidade de exercer a Presidência.

“Ele podia ganhar mais jogando parado do que fazendo esse papel ridículo que ele fez, inspirado no seu professor, o Pablo Marçal”, disse.

A avaliação de Coimbra é que o comportamento do candidato pode ter provocado consequências que ultrapassam a percepção imediata de quem venceu ou perdeu o debate. Ao examinar a cobertura da imprensa no dia seguinte, ele identificou sinais de questionamento sobre Flávio Bolsonaro em setores que, até então, tratavam sua candidatura como uma alternativa política aceitável.

O especialista citou manifestações de articulistas da Folha de S.Paulo como exemplos de uma possível mudança na maneira de avaliar o candidato. Segundo ele, comentários publicados após o debate sugeriam que determinadas características de Flávio passaram a ser consideradas um problema para sua própria candidatura.

Coimbra ressaltou, entretanto, que essa percepção ainda não permite afirmar que houve uma alteração efetiva na intenção de voto. Trata-se, por enquanto, de uma hipótese sobre os efeitos políticos do confronto, cuja confirmação depende de pesquisas realizadas após a transmissão.

“A impressão que me deu é de que começa uma pequena quebra num modo de olhar para a eleição que estava claramente favorecendo essa contraposição do presidente Lula com esse cidadão”, afirmou.

Para explicar o risco eleitoral da estratégia de Flávio, Coimbra também recuperou a experiência de Geraldo Alckmin na eleição presidencial de 2006. Naquele segundo turno, o então candidato do PSDB adotou uma postura de maior agressividade contra Lula, diferente do comportamento que havia caracterizado sua trajetória política.

Segundo o sociólogo, Alckmin chegou à reta final da disputa em uma situação desfavorável e tentou mobilizar os setores mais combativos de seu eleitorado. A mudança de postura, contudo, não conseguiu reverter a tendência de derrota.

Coimbra observou que Alckmin abandonou posteriormente aquela forma de atuação e continuou conquistando vitórias eleitorais, incluindo novas eleições para o governo de São Paulo.

A comparação serve, na análise do especialista, para demonstrar que estratégias de confronto podem funcionar como tentativas de mobilização de uma base já existente, mas não oferecem necessariamente condições para conquistar os votos que faltam a uma candidatura.

No caso de Flávio Bolsonaro, Coimbra considera que o problema pode ser ainda maior porque o candidato não estava obrigado a assumir uma postura de confronto para preservar sua competitividade. A decisão de apostar na agressividade teria introduzido um elemento de risco em uma disputa marcada por diferenças reduzidas nas pesquisas.

O especialista também levantou a possibilidade de que a própria campanha do PL reavalie a estratégia antes do debate da TV Globo, previsto para a sexta-feira anterior à votação. Ele acredita que pesquisas qualitativas e levantamentos de intenção de voto poderão indicar se houve rejeição ao comportamento apresentado na Band.

“Eu acho que o Flávio Bolsonaro vai procurar fazer diferente”, afirmou, deixando claro que se trata de uma expectativa, e não de uma informação sobre decisões internas da campanha.

Para Coimbra, o episódio pode produzir uma consequência decisiva caso parte dos eleitores que vinham considerando votar em Flávio passe a questionar essa escolha. O sociólogo não afirmou que esse movimento já ocorreu, mas sustentou que a experiência de outras eleições mostra como acontecimentos da reta final podem alterar percepções que pareciam consolidadas.

Sua conclusão é que Flávio Bolsonaro assumiu um risco ao privilegiar uma linguagem voltada aos apoiadores mais radicalizados, justamente no momento em que precisava conquistar a confiança de eleitores situados fora desse núcleo. A dimensão desse possível desgaste, segundo a análise apresentada, dependerá de como o eleitorado reagirá nos dias que antecedem o segundo turno.

Fonte: Brasil 247

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