A eleição saiu das mãos dos marqueteiros; e agora?

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Eleições 2026

Zuza Nacif

20/10/2026 12:00

O resultado do primeiro turno provocou um susto em parte do mundo político, especialmente na esquerda. Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%. Mas, para quem acompanha diariamente o ambiente digital, a força da direita nas redes já indicava que a disputa seria muito mais difícil do que alguns imaginavam.

O que talvez poucos esperassem era a reação que viria depois.

O segundo turno está revelando um fenômeno que merece atenção de pesquisadores, estrategistas e lideranças políticas: uma mobilização que não nasce necessariamente nos comitês eleitorais, não espera orientação dos marqueteiros e nem depende de autorização dos partidos.

As pessoas resolveram fazer política por conta própria.

Antes mesmo da organização de movimentos digitais liderados por André Janones, já era possível observar cidadãos produzindo vídeos, criando argumentos, compartilhando conteúdos e defendendo posições em seus próprios perfis. Cada um com sua linguagem, suas referências e sua maneira de interpretar a eleição.

É a política deixando de ser apenas distribuída pelas campanhas para ser também produzida pelos eleitores.

E os números ajudam a entender a dimensão desse fenômeno. Segundo o Digital News Report 2026, do Reuters Institute, as redes sociais já superam a televisão em nove pontos percentuais como fonte semanal de notícias no Brasil. Além disso, 33% dos brasileiros consultados consomem notícias de criadores e influenciadores especializados nesse tipo de conteúdo.

Isso muda profundamente a lógica da comunicação eleitoral.

O eleitor não é mais apenas receptor. Ele comenta, edita, reage, publica, compartilha e influencia outras pessoas. Muitas vezes, faz tudo isso com uma autenticidade que nenhuma campanha consegue reproduzir integralmente.

Outro fenômeno chama atenção: a entrada de influenciadores que tradicionalmente não falavam de política.

Criadores de entretenimento, humor e comportamento perceberam que o debate eleitoral passou a disputar espaço com as grandes tendências digitais. Alguns perderam seguidores, outros conquistaram novas audiências. Mas todos passaram a experimentar o potencial de engajamento de um assunto que mobiliza paixões.

Existe aqui uma dinâmica interessante. Conteúdos favoráveis a Lula ou críticos a Flávio Bolsonaro recebem compartilhamentos de apoiadores e também reações de adversários. A controvérsia pode ampliar a circulação das publicações, embora o alcance dependa dos algoritmos e não signifique, necessariamente, convencimento eleitoral.

O debate político passou a atravessar bolhas que antes pareciam impermeáveis.

O Reuters Institute também identificou que apenas 36% dos brasileiros confiam nas notícias em geral e que 47% evitam o noticiário pelo menos ocasionalmente. Nesse ambiente, a informação circula cada vez mais por pessoas conhecidas, criadores digitais e redes de relacionamento.

A consequência é uma disputa pela atenção que já não pode ser controlada exclusivamente pelas campanhas.

Produção independente de vídeos, argumentos e conteúdos políticos ganha força na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro e revela uma participação digital que ultrapassa partidos e marqueteiros.

E essa movimentação acontece justamente quando a eleição se mostra extremamente apertada. Pesquisa BTG/Nexusdivulgada em 19 de outubro aponta Flávio com 50,3% e Lula com 49,7% dos votos válidos, um empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

Não é possível afirmar que a mobilização digital provocou essa aproximação. Mas seria um erro ignorar a intensidade da participação política que estamos observando.

O fenômeno também ultrapassa as telas.

As manifestações de rua mostram que grupos de cidadãos conseguem se organizar, estabelecer pautas e conquistar visibilidade sem depender de uma liderança única. As redes facilitam a convocação, mas a disposição de participar nasce de motivações que nenhuma agência de publicidade consegue fabricar sozinha.

O debate da Band, realizado no domingo, reforçou a centralidade dessa disputa. Dados preliminares de audiência apontaram média de 13 pontos na Grande São Paulo, superando a Globo naquele horário. A política continua mobilizando grandes públicos, mas agora cada confronto televisivo se desdobra em milhares de interpretações digitais.

O desafio das campanhas é compreender que perderam o monopólio da narrativa.

A direita construiu uma presença digital consistente ao longo dos últimos anos. A esquerda, por sua vez, demonstra capacidade de mobilização que vai além das estruturas partidárias. Nenhum dos dois campos pode presumir que essa energia esteja permanentemente sob seu controle.

A grande mudança não está apenas nas ferramentas, mas no comportamento das pessoas.

Quem trabalha com marketing político precisa entender que o cidadão não quer necessariamente receber uma mensagem pronta. Quer participar, interpretar, produzir e ser ouvido.

No dia 25 de outubro, conheceremos o resultado das urnas. Independentemente de quem vença, uma transformação já merece ser estudada: a comunicação política está se tornando cada vez mais descentralizada.

As campanhas ainda podem organizar a mensagem. Mas já não são as únicas capazes de criar o movimento.

E talvez essa seja a maior lição eleitoral de 2026.

O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.

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Fonte: Congresso em Foco

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