Reciclagem no Brasil segue informal e longe das metas, mostram dados do setor e do governo
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A cadeia da reciclagem no Brasil ainda depende majoritariamente de pessoas físicas, em grande parte catadores autônomos, e alcança uma parcela pequena dos resíduos gerados no país. É o que indicam os dados da primeira edição do Retrato SyGeCom da Reciclagem no Brasil, lançada nesta terça-feira (19) na Eco Expo.
Dos 323.500 fornecedores que realizaram ao menos uma transação de materiais recicláveis com clientes da SyGeCom em 2025, 274.276 (84,79%) eram pessoas físicas. As pessoas jurídicas somaram 49.224 (15,21%). A empresa desenvolve softwares de gestão para negócios de reciclagem e reuniu os registros de mais de 1.500 clientes ativos, presentes em todos os estados.
“Ainda prevalecem os CPFs atuando nas transações e vendendo materiais para empresas. Esses dados são reflexo da cultura da reciclagem no Brasil, movimentada, em grande parte, por catadores autônomos que encontram na atividade um meio de renda e sobrevivência”, disse Dinho Machado, CEO do Grupo SyGeCom.
Em outubro de 2026, os quatro sistemas da SyGeCom somavam mais de 1,1 milhão de fornecedores cadastrados ao longo de sua trajetória, dos quais 83,91% eram pessoas físicas e 16,09%, pessoas jurídicas.
Informalidade persistente
Os números do setor apontam na mesma direção. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), com dados de 2024, cerca de 7,1 milhões de toneladas de resíduos secos foram enviadas à reciclagem no país. Desse total, 4,6 milhões de toneladas, quase dois terços, foram coletadas de maneira informal por catadores autônomos e levadas diretamente à reciclagem. Apenas 2,5 milhões de toneladas vieram da coleta feita por serviços públicos.
Nos registros oficiais, esse contingente aparece bem menor. O Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), do Ministério das Cidades, identificou 22.428 catadores informais e 37.386 catadores vinculados a cooperativas ou associações, segundo seu relatório de resíduos sólidos com dados de 2023.
Para Machado, ampliar a profissionalização e a integração do setor passa pelo desenvolvimento de soluções tecnológicas que atendam às necessidades dos diferentes participantes da cadeia, incluindo processos operacionais, contábeis, fiscais e logísticos.
Reciclagem ainda é fatia pequena do lixo
A baixa penetração da reciclagem é outro obstáculo. O Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024, segundo a Abrema. Os 7,1 milhões de toneladas de secos enviados à reciclagem equivalem a 8,7% desse total. No mesmo ano, 28,1 milhões de toneladas, ou 40,3% do lixo coletado, ainda foram parar em lixões ou em outros destinos inadequados.
Os dados oficiais, que consideram apenas o que passa pelos serviços municipais, mostram um quadro ainda mais restrito. Segundo o SINISA, o país coletou cerca de 78,2 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2023 e recuperou 1,17 milhão de toneladas de recicláveis por meio desses serviços. A taxa de recuperação, que inclui secos e orgânicos, foi de 1,82%. A coleta seletiva atendia 36% da população, e 1.606 lixões seguiam em operação.
O cenário está distante das metas oficiais. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Planares), instituído em 2022, prevê elevar a recuperação da fração seca dos resíduos sólidos urbanos de 3% para 20% até 2040 e recuperar 48,1% da massa total de resíduos urbanos no mesmo prazo, somando reciclagem, tratamento biológico e aproveitamento energético.
Parte da dificuldade de medir o setor está justamente na informalidade. Segundo a SyGeCom, grande parte do que é reciclado no país não passa por registros oficiais, o que motivou a empresa a divulgar os dados de sua base.
O que mostra o levantamento
O volume de resíduos movimentados por clientes da SyGeCom chegou a 11,14 milhões de toneladas em 2025, um crescimento de 20,69% em relação ao ano anterior. Os números, porém, não representam o volume total de resíduos efetivamente reciclados no país. Como um mesmo material pode passar por diferentes negócios antes de chegar à indústria, ele pode ser registrado mais de uma vez nos sistemas. Considerando uma média de três etapas ao longo da cadeia, a empresa estima que pelo menos 3,71 milhões de toneladas correspondam a resíduos únicos movimentados em 2025.
A SyGeCom ressalta que os dados não resultam de uma pesquisa com rigor amostral nem com detalhamento de critérios metodológicos. Por isso, não devem ser comparados diretamente com os do Panorama da Abrema ou do SINISA. Enquanto esses estudos estimam os resíduos enviados à reciclagem ou recuperados, o levantamento da empresa soma as transações registradas nas plataformas de seus clientes.
No recorte regional, o Sudeste respondeu por 65% do volume registrado em 2025, com aproximadamente 7,26 milhões de toneladas. Na sequência aparecem o Sul (19%), o Centro-Oeste (7%), o Nordeste (6%) e o Norte (3%). O relatório observa que o Sudeste também é a região que concentra a maior parte dos clientes que utilizam os sistemas da empresa.
A empresa compara essa distribuição com o anuário IPC Maps 2025, que aponta o Sudeste como responsável por 49% do potencial de consumo nacional. Embora não estabeleça uma relação direta de causa e efeito, a SyGeCom aponta o consumo como fator determinante da geração de materiais disponíveis para reciclagem.
Segundo Machado, a intenção é transformar o levantamento em uma série histórica, com dados anuais divulgados no ano seguinte, para contribuir com o debate público sobre o setor.
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Fonte: umsoplaneta