Nem todo bancão vai sair ileso: o que esperar dos balanços de Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil no 3T26
Por Camille Lima — Seu Dinheiro

Mais uma vez, a temporada de balanços dos bancões começa com um cenário desigual: enquanto o Itaú parece ter mais fôlego para seguir nadando de braçada, os concorrentes ainda precisam lidar com águas mais turbulentas.
No terceiro trimestre de 2026 (3T26), a expectativa dos analistas é de que o crédito continue sendo uma pedra no sapato do setor, com custo de risco elevado e pressão sobre as margens — uma conta difícil de fechar.
Para os analistas, a diferença está na capacidade de cada banco de atravessar esse cenário sem deixar que a inadimplência corroa a rentabilidade. Os balanços desta safra devem ajudar a dimensionar essas diferenças.
O Bradesco (BBDC4) abre a temporada nesta quinta-feira (22), após o fechamento dos mercados. Já o Santander Brasil (SANB11) divulga seus números em 28 de outubro, antes da abertura.
Nas semanas seguintes, será a vez do Itaú Unibanco (ITUB4), em 4 de novembro, e do Banco do Brasil (BBAS3), em 11 de novembro — ambos após o fechamento da B3.
O que esperar dos balanços dos bancos no 3T26?
O desafio não é o mesmo para todos. Para alguns bancos, a questão será defender os ganhos em meio ao crédito mais arriscado; para outros, mostrar que a recuperação dos resultados consegue se sustentar.
A aposta dos analistas é que o Itaú mantenha a rentabilidade em patamar elevado, enquanto o Santander e o Banco do Brasil enfrentam perspectivas mais difíceis.
Já o Bradesco está em uma posição intermediária: pode continuar recuperando a rentabilidade, mas ainda precisa lidar com a deterioração de parte da carteira de crédito.
Veja as projeções:
Na avaliação do Citi, os bancos privados devem continuar moderando a concessão de crédito para preservar a qualidade dos ativos. Isso limita o crescimento das receitas, embora parte da pressão seja compensada pelo controle de despesas.
Ainda assim, o custo do crédito e o ritmo de expansão das carteiras devem concentrar as atenções nesta temporada. As dificuldades nos empréstimos a pequenas e médias empresas (PMEs), clientes de menor renda e agronegócio deixam pouco espaço para uma melhora expressiva nas provisões, segundo o Citi.
O Itaú BBA também espera cautela nas perspectivas dos bancos, diante das incertezas sobre a atividade econômica e a capacidade de pagamento de pessoas físicas e PMEs.
Já o Goldman Sachs alerta que a deterioração dos ativos pode levantar dúvidas sobre a capacidade de algumas instituições de gerar capital com os próprios resultados.
Apesar disso, os analistas avaliam que os grandes bancos devem continuar acima dos limites mínimos regulatórios de capital. A questão é quanto cada um terá de sacrificar em rentabilidade para atravessar o ciclo de crédito.
Bradesco (BBDC4) no 3T26: rentabilidade em recuperação, mas crédito segue no radar
- Divulgação: 22 de outubro, após o fechamento
- Lucro projetado: R$ 7,145 bilhões (+15% a/a)
- ROE esperado: 15,9%
A previsão dos analistas é que o Bradesco (BBDC4) deve continuar avançando na recuperação da rentabilidade no 3T26, mas sem se livrar completamente das pressões do crédito.
Para o Itaú BBA, o trimestre tende a ser modesto, com a deterioração de algumas linhas compensada pela mudança gradual da carteira em direção a segmentos mais garantidos e de menor risco.
O Citi espera que receitas com tarifas e operações de mercado ajudem a amortecer o impacto da piora na qualidade dos ativos.
Ainda assim, os analistas projetam aumento da inadimplência em carteiras como crédito emergencial, cartões para clientes de menor renda, agronegócio e financiamentos ligados à John Deere.
A XP tem uma visão mais otimista e espera um trimestre sólido, com crescimento saudável das receitas e deterioração gradual da carteira.
Outro fator que deve aparecer nos números é o aumento de capital de quase R$ 10 bilhões, que tende a pressionar temporariamente o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE).
Em entrevista ao Seu Dinheiro em setembro, o diretor financeiro (CFO) do Bradesco, Cassiano Scarpelli, já havia antecipado esse efeito mecânico: com uma base de capital maior, a rentabilidade demora a acompanhar o crescimento do patrimônio.
Santander Brasil (SANB11) com menos espaço para otimismo
- Divulgação: 28 de outubro, antes da abertura
- Lucro projetado: R$ 3,161 bilhões (-21% a/a)
- ROE esperado: 12,7%
O Santander Brasil (SANB11) chega à temporada sob pressão para recuperar a rentabilidade, enquanto o mercado também acompanha a oferta pública de aquisição de ações (OPA) anunciada pela matriz espanhola.
Nos números financeiros, contudo, a expectativa para o balanço é mais negativa. O Citi prevê um trimestre fraco, com margens financeiras menos favoráveis e custo de crédito elevado, apesar do crescimento da carteira.
O Itaú BBA também projeta nova contração do lucro, à medida que a estratégia de reduzir o risco dos empréstimos continua pressionando as margens, sem que os benefícios apareçam de forma clara nos indicadores de inadimplência e provisões, o colchão dos bancos para eventuais calotes.
Na última temporada de resultados, o próprio diretor financeiro do Santander Brasil, Carlos Muñiz, afirmou que não estava otimista, pessoalmente, com os trimestres seguintes.
A XP espera que o crédito imobiliário e os clientes de renda mais alta continuem sustentando o crescimento, enquanto as carteiras voltadas à população de menor renda seguem em retração.
O problema é que os empréstimos ao agronegócio, ao público de menor renda e ao segmento de atacado devem continuar pressionando a qualidade dos ativos e as provisões.
Nesse cenário, o custo de risco permanece como um dos principais obstáculos para o resultado do banco.
Itaú Unibanco (ITUB4): o porto seguro entre os bancões?
- Divulgação: 4 de novembro, após o fechamento
- Lucro projetado: R$ 12,714 bilhões (+7% a/a)
- ROE esperado: 23,8%
Em meio às dificuldades dos pares, o Itaú Unibanco (ITUB4) deve fazer jus ao apelido de “relógio suíço do setor financeiro” e apresentar um balanço mais previsível.
O Citi espera crescimento saudável da carteira de crédito, margem financeira resiliente, qualidade de ativos estável e disciplina de custos.
A XP também prevê expansão controlada dos empréstimos, em linha com a estratégia do banco de priorizar retornos ajustados ao risco em vez de buscar participação de mercado a qualquer custo.
Ainda assim, a expectativa é que as provisões cresçam, em geral, acompanhando a carteira, sem deterioração relevante nos segmentos de varejo e atacado.
PMEs ainda podem passar por um processo de normalização, mas o Goldman Sachs considera que o Itaú está entre as instituições com maior proteção contra uma piora do ciclo de crédito.
Banco do Brasil (BBAS3) continua a sofrer com o agronegócio?
- Divulgação: 11 de novembro, após o fechamento
- Lucro projetado: R$ 4 bilhões (+5,6% a/a)
- ROE esperado: 7,7%
O Banco do Brasil (BBAS3) encerra a temporada do 3T26 entre os nomes que mais preocupam os analistas. O desafio central continua sendo a qualidade da carteira de crédito rural, pressionada pela dificuldade de produtores em regularizar pagamentos e pelo nível elevado de provisões.
Os analistas avaliam que a recuperação dos empréstimos em atraso ainda é limitada e que os efeitos das medidas de apoio ao agronegócio, como a MP 1.376 de fôlego ao setor rural, devem aparecer de forma mais significativa apenas no quarto trimestre.
O Goldman Sachs também espera efeitos limitados da medida neste trimestre, já que o banco continua priorizando a renegociação das dívidas de clientes mais pressionados, o que reduz o ritmo de liberação de novos recursos.
O Citi projeta queda de aproximadamente 40% no lucro líquido na comparação trimestral e ROE próximo de 5%. Além disso, os analistas reduziram em cerca de 20% as estimativas para os resultados de 2026 e 2027, diante de custos de crédito mais elevados do que o esperado.
O Itaú BBA também vê risco de revisões negativas nas projeções para o Banco do Brasil. Para os analistas, o nível de provisões deve continuar pesando sobre o resultado, sobretudo nas carteiras de menor renda e agro, parcialmente compensadas por tendências mais controladas no crédito corporativo.
A situação também exige atenção do ponto de vista do capital. Segundo o Goldman Sachs, o índice de capital principal (CET1) do BB estava em 11,3% no segundo trimestre, o nível mais vulnerável entre os grandes bancos analisados.
Apesar disso, os analistas destacam que medidas regulatórias e mudanças no cronograma de pagamentos de um instrumento de capital junto ao Tesouro Nacional ajudam a preservar essa posição.
Segundo o Goldman, sem os efeitos de medidas extraordinárias que preservaram cerca de 181 pontos-base de capital, o índice cairia para 9,4%, reduzindo a distância em relação ao mínimo regulatório de 8%.
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Fonte: Seu Dinheiro