Qual o impacto para os trabalhadores da “motossera de Milei” que Flávio quer copiar?
Por Ítalo Gimenes — Esquerda Diário

No debate da Band, Flávio Bolsonaro driblou, se esquivou, mas não teve como esconder: Javier Milei é para ele um ídolo e seu modelo de governo profundamente ajustador contra os trabalhadores, os serviços públicos e totalmente subserviente aos EUA é o modelo a ser seguido por Flávio. Saiba mais o que está sendo o plano “motoserra” de Milei, copiado pelo plano “tesouraço” de Flávio, e porque ele levou ao desemprego, à fome e à precariedade dos serviços públicos na Argentina.
O que é o plano “motosserra” de Javier Milei?
O plano “motosserra” de Milei é um programa de ajuste que combina cortes nos gastos públicos, redução de salários e do emprego estatal, desfinanciamento de políticas públicas e uma reforma trabalhista que precariza as condições de trabalho. Seus efeitos recaem principalmente sobre a classe trabalhadora, enquanto o governo mantém benefícios para grandes empresas e especuladores financeiros. Veja quais são os principais pontos e impactos das medidas:
1) Destruição de empregos formais.
Entre dezembro de 2023 e julho de 2026, cerca de 370.343 trabalhadores com carteira assinada perderam seus empregos. Os setores mais afetados foram a construção civil, a indústria de transformação, o comércio, os transportes e as comunicações e a intermediação financeira.
2) Mais precarização do trabalho.
Entre o quarto trimestre de 2023 e o mesmo período de 2025, foram destruídos 241.000 empregos formais no setor privado e 24.000 no setor público, enquanto cresceram o trabalho autônomo e o emprego informal. Ou seja, o suposto aumento do emprego se apoiou em postos de trabalho com menos direitos e maior instabilidade.
3) Queda do salário real.
O ajuste mantém os salários abaixo da inflação. As direções da CGT e da CTA vêm aceitando acordos que não recuperam as perdas, enquanto o governo promove ajustes nos salários, nas aposentadorias e nos gastos públicos. Flávio Bolsonaro já prometeu que vai congelar o reajuste real do salário mínimo, medida que se fosse aplicada desde 2004, o valor do salário mínimo não ultrapassaria os R$ 900,00.
4) Reforma trabalhista regressiva, demissões e aumento do trabalho precário.
A contrarreforma aprovada por meio do DNU 70/23, da Lei Bases e de outras normas mantém em vigor ataques à jornada de trabalho, às férias, à proteção contra a demissão discriminatória e ao direito de greve. A reforma é caracterizada como “escravista” porque busca impor mais flexibilidade e menos direitos para quem trabalha. Em maio de 2026, registrou-se uma situação de longas filas para conseguir trabalho em Moreno. A precariedade atingia 83% dos jovens e 81% dos idosos, enquanto os setores que mais geram empregos — indústria, construção civil e comércio — estavam em retração.
Da mesma forma, a proposta de Flávio Bolsonaro de impor a escala 7×0, com a jornada de trabalho flexível, visa anular os efeitos do fim da 6×1 e impor uma projeto escravista tal como Milei.
5) Impacto maior sobre as mulheres trabalhadoras
O ataque aos salários, às condições de contratação e aos serviços públicos de cuidado transfere mais custos da crise para os lares. As mulheres realizam, em média, 6 horas e 31 minutos diários de trabalho não remunerado, contra 3 horas e 40 minutos no caso dos homens. Além disso, aumentou fortemente a proporção de mulheres chefes de família que trabalham por conta própria em suas casas, tornando a jornada de trabalho e as tarefas domésticas praticamente ininterruptas.
6) Demissões e ajuste no Estado.
A redução dos gastos públicos atinge os salários, os postos de trabalho e os serviços. Em abril de 2026, a chamada “motosserra dos gastos” provocou um corte de quase 6%, especialmente nas transferências para as províncias, nos subsídios, nos programas sociais e nas obras públicas. Flávio adota essa política demagógica de corte de gastos do aparato estatal, quando na verdade já vimos no governo do seu pai o loteamento de ministérios por generais e aliados políticos, dessa vez podendo entregar até mesmo ministério para o coach negacionista Pablo Marçal. Mas o foco mesmo são os serviços públicos, com Flávio ameaçando um “SUS padrão Albert Einstein”, diretamente uma proposta privatista, privatizar 95% das estatais e impor um corte de mais de R$200 bilhões no orçamento.
7) Corte de verba na educação pública.
As verbas destinadas às universidades públicas caíram 31% desde 2023 e se encontram em mínimos históricos, enquanto o governo descumpre a Lei de Financiamento Universitário. Desde então, a juventude vem travando uma forte luta nas ruas contra esse ataque de Milei. Flávio é um inimigo declarado das universidades públicas, quer passar o seu controle para o Ministério de Ciência e Tecnologia, com verba ainda menor, voltando ainda mais a produção de conhecimento para o setor privado das indústrias, para as big techs, abrindo caminho para a privatização do ensino superior.
8) Menos recursos para aposentadorias e seguridade social.
A perda de empregos formais e o crescimento da precarização reduzem a quantidade de contribuintes e as bases salariais sobre as quais se financia a Seguridade Social. Os aposentados foram linha de frente do enfrentamento ao seu governo, com marchas todas as quartas-feiras contra os ataques de Milei, velhinhos insurretos que não temiam as bombas e balas da polícia. Aqui, Flávio Bolsonaro já prometeu congelar o BPC, desvincular do aumento do salário mínimo e já insinuou uma nova reforma da previdência. O que esperar de Flávio BolsoMaster, cujos R$130 milhões “doados” por Vorcaro para “patrocinar o filme” de seu pai – e a estadia do seu irmão nos EUA – vieram diretamente da fraude contra os aposentados do INSS?
9) Entregar terras e riquezas ao imperialismo e subordinação ao governo de Donald Trump
Javier Milei tinha um plano de estrangeirizar as terras Argentinas, ou seja, permitir que a maior parte delas pudesse ser comprada por pessoas de outras nacionalidades. Basicamente o seu plano era literalmente vender o país, as riquezas, para burguesia e estados imperialistas pudessem controlar as riquezas argentinas, o extremo do entreguismo e colonialismo. Felizmente, uma grande mobilização da juventude e de trabalhadores impôs limites a esse plano, embora o entreguismo de Milei siga em curso. Flávio já deixou claro que quer fazer do Brasil a “solução dos EUA” para a sua dependência em relação à China na produção de terras raras. Pretende entregar tudo de bandeja para Trump: terras raras, petróleo e outros minerais de interesse dos EUA, mas nada impede que ele siga o plano de Milei de estrangeirizar as terras, desde que não atrapalhe os interesses do agronegócio nacional.
O que certamente não passará sem resistência, em especial dos povos indígenas, que foram os setores mais combativos contra o projeto de “passar a boiada” do governo de Jair Bolsonaro, mas também contra a tentativa de privatização dos rios durante o governo Lula.
A força social que impôs o fim da escala 6×1 pode conter o tesouraço de Flávio Bolsonaro
A “motosserra” de Milei não significa apenas reduzir o tamanho do Estado: implica descarregar o custo da crise sobre os trabalhadores e as trabalhadoras por meio de demissões, salários que perdem poder aquisitivo, empregos informais, redução de direitos trabalhistas e deterioração dos serviços públicos. Mas há uma forte resposta sendo colocada desde os locais de trabalho e estudo, com manifestações massivas da juventude em defesa das universidades, dos aposentados, dos operários de fábricas ocupadas, dos trabalhadores da educação e da saúde, entre muitos exemplos.
Além disso, na Argentina se desenvolveu o fenômeno político em torno da figura de Myriam Bregman, parlamentar pelo Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS, organização irmã do MRT), que é a opositora do governo mais bem avaliada nas pesquisas. A partir desse fenômeno que o PTS e setores da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT – U) vem impulsionando Comitês por um Partido Revolucionário que organiza milhares que querem combater Milei nas ruas pelo país e construir uma alternativa política independente que supere a estratégia de moderação e conciliação do peronismo.
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Da mesma forma que Milei não implementa sua motosserra sem resposta, Flávio Bolsonaro já encontra um forte rechaço social nas ruas, com manifestações cuja dimensão não se via desde Junho de 2013, que além do apoio a Lula expressam uma série de demandas que se chocam com seus planos. Foram responsáveis por expressar a força social de trabalhadores que apoia o fim da escala 6×1 e obrigou todo o regime, inclusive os bolsonaristas, a colocarem o rabo entre as pernas e mentirem para a população que eles são favoráveis a essa proposta. Mesmo que Flávio ganhe, a extrema direita perdeu o protagonismo das ruas e não terá via fácil para impor seu tesouraço, seu projeto escravista e de subordinação aos EUA.
Assim como na Argentina, a resposta à Milei tem sido a organização e coordenação das lutas pela base, dos setores afetados, que avance rumo a um plano de luta e a uma greve geral contra o ajuste, as demissões e a reforma trabalhista, no Brasil não poderá ser diferente. Essa força social que retomou as ruas e mostra que existe uma forte oposição aos planos da extrema direita é ponto de apoio para superar a política de moderação e conciliação que veio fortalecendo o bolsonarismo nos últimos quatro anos, por parte da Frente Ampla e do PT.
Fonte: Esquerda Diário