Quem venceu o debate?
Por Luís José Bassoli — Brasil 247
Lula e Flávio Bolsonaro protagonizaram o único debate antes do segundo turno, na noite de domingo (18), na Rede Bandeirantes.
Quem venceu? Ninguém!
Porque debate não é uma disputa, tal partida de futebol, e sim a oportunidade de confrontação de ideias, propostas, projetos e, sobretudo, de postura.
Ao final, foi esclarecedor, sem trazer nenhuma novidade. Ninguém esperava nada diferente de Lula, todos o conhecemos bem, se mostrou o Lula de sempre.
Quanto ao Flávio Bolsonaro, havia certa expectativa de que poderia inovar, se apresentar como “moderado”, responder às perguntas, esclarecer, pelo menos, sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, detalhar seu plano de governo.
Lula confirmou ser um senhor equilibrado, que tem consciência do seu papel histórico, o estadista que o mundo reconhece há tempos; Flávio frustrou as expectativas, só ratificou o que o Brasil e o mundo já sabiam, um sujeito despreparado, desrespeitoso, por vezes debochado, sem plano de governo, sem ideias factíveis, sem compromisso em dizer a verdade, que se esquiva de responder qualquer pergunta que lhe é incômoda – o bolsonarista de sempre, agressivo e dissimulado, à maneira de seu pai.
Numa breve análise de desempenho, o senador começou bem, não desmaiou, ao contrário, demonstrou desenvoltura e partiu para o ataque, com ímpeto juvenil e pose jovial, bailando pelo palco, lívido e seguro de si; Lula parecia titubeante, por demais comedido, o que chegou a sugerir insegurança, causando desconforto nos seus eleitores-expectadores.
Sob um bombardeio de ataques de Flávio, a maioria na base da fake news, o presidente adotou uma tática tenaz, pediu para o senador explicar onde foram parar os 132 milhões de reais que recebeu de Vorcaro. Flávio tergiversou, enrolou, desviou, disse que foram para o filme do pai dele, sem convencer ninguém. Lula notou o calcanhar de Aquiles e não fez outra senão a mesma pergunta: onde foram parar os 132 milhões? E deixou claro: “– Se você não responder, não farei outra pergunta, até que você responda”.
Flávio parecia estar muito seguro e até orgulhoso de seu desempenho, o excesso de confiança o levou a mostrar sua face debochada, rindo, balançando os braços, disse que Lula ia assistir ao filme do pai dele e que iria aplaudir no final, fazendo gestos de palminhas; serelepe, quis humilhar Lula, dizendo que o pai dele era chamado de “mito”, coisa que ele, Lula, nunca seria. A primeira errada de mão: a um político que quer ser líder de sua nação não é prudente se comportar como um aluno da quinta série, que bate palminha, balança o corpo e ri para constranger um idoso de 80 anos – é coisa de “moleque”, como se espalhou pelas críticas nas redes sociais.
O primeiro bloco acabou com Flávio atacando Lula, mas sem responder à única indagação: onde foram parar os 132 milhões que pegou do Vorcaro?
Bom, Flávio voltou ao segundo bloco com a nítida impressão de que estava no total comando da situação, seu gestual ainda mais intrépido, andava a passos firmes, pra lá e pra cá, como que marcando o território, e disparou uma provocação (alicerçada em fake news), certo de que desconstruiria o adversário e se esbaldaria com o corte tipo Tik Tok nas redes: “– Lula, o que você acha de 70% dos presidiários terem votado em você?”. O rapaz não contava com a astúcia do velhinho, que respondeu com a arma ferina do bom humor: “– Ora, queria ter 100% dos votos, inclusive o do seu pai”. Detalhe: por ter sido uma reação à provocação, a piada foi adequada, não pareceu grosseira, arrancando risos espontâneos da plateia. Flávio sentiu o desconforto.
Os minutos seguintes não tiveram nada de muito especial, as promessas esquisitas de Flávio, como um tal Ministério da Prosperidade; Lula dando explicações do governo e apontando alguns planos para o futuro, até que o imponderável, sempre ele, apareceu, quando se falava de corrupção. Meio que despretensiosamente, Lula surpreendeu Flávio (e a todos nós): “– Eu vou fazer uma proposta para você, Flávio, eu desafio, você e eu, amanhã, a abrirmos a nossa conta bancária, abrirmos o nosso sigilo telefônico, para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão”!
Lula – e todos os eleitores do Brasil – ficamos sem resposta.
Fim do debate.
Fonte: Brasil 247