Em campanha no rádio, Lula aposta na escala 6×1 e Flávio Bolsonaro no discurso de mudança
Por Leonardo Lucena — Brasil 247
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) adotaram estratégias distintas na propaganda eleitoral de rádio durante o segundo turno das eleições de 2026. Enquanto o petista concentrou suas inserções na defesa do fim da escala 6×1, nos direitos trabalhistas e nas críticas ao adversário, o senador da extrema direita priorizou o discurso de mudança e a insatisfação com o governo federal. A informação foi divulgada neste domingo (18) pelo G1, que utilizou as inserções que as campanhas registraram no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e identificou diferenças na abordagem dos dois candidatos à Presidência da República.
A campanha petista mencionou Lula 23 vezes, Flávio em 16 ocasiões e o fim da jornada de seis dias de trabalho por um de descanso 15 vezes. Na propaganda do candidato do PL, os termos mais frequentes foram “Brasil”, com 29 registros, “Flávio”, com 22, e “Lula”, com 18.
O filho de Jair Bolsonaro (PL) apresentou 15 peças inéditas, que somaram 1.199 palavras. Lula levou ao rádio 17 inserções, das quais dez tinham conteúdos originais e sete repetiam materiais anteriores, totalizando 1.415 palavras. O levantamento excluiu artigos, preposições, conectivos e verbos sem significado relevante para a comparação.
Os resultados indicam que as campanhas procuram mobilizar o eleitorado por caminhos diferentes na disputa marcada para 25 de outubro. A equipe de Lula busca destacar os riscos que atribui a uma eventual vitória do adversário e associar a candidatura petista à ampliação dos direitos sociais. O senador procura apresentar a eleição como uma oportunidade de substituir o atual governo, explorando preocupações relacionadas à economia e à segurança pública.
Lula amplia críticas a Flávio e destaca direitos trabalhistas
A campanha do presidente Lula modificou sua comunicação após o resultado do primeiro turno, quando o candidato do PT terminou a votação atrás do senador Flávio Bolsonaro. A estratégia anterior privilegiava realizações do governo federal e políticas públicas implementadas durante o mandato presidencial.
Na segunda etapa da disputa, a coordenação petista passou a reservar mais espaço para críticas ao candidato do PL, ao mesmo tempo em que reforçou propostas relacionadas à renda, ao emprego e às condições de trabalho.
A presença do nome de Flávio Bolsonaro em 16 ocasiões nas peças de Lula mostra a importância que a campanha atribui ao confronto direto com o adversário. A equipe procura estabelecer diferenças entre os dois projetos políticos e chamar a atenção para as consequências que associa ao retorno da família Bolsonaro à Presidência da República.
A mudança de abordagem também acompanha os resultados das pesquisas eleitorais. Levantamento Quaest divulgado na quarta-feira (14) apontou que 43% dos entrevistados manifestaram medo da volta da família Bolsonaro ao poder. O mesmo percentual declarou receio de uma reeleição de Lula.
Os números revelam a divisão do eleitorado diante das duas candidaturas e ajudam a explicar o espaço que as campanhas reservam às críticas mútuas.
Fim da escala 6×1 ganha espaço na propaganda de Lula
Entre as propostas que o presidente procura associar à sua candidatura, o fim da escala de trabalho 6×1 ocupa uma posição de destaque. O levantamento identificou 15 referências ao tema nas inserções petistas, tornando a pauta uma das mais presentes no material da campanha.
A mudança na jornada de trabalho, promulgada na sexta-feira (16), tornou-se um dos assuntos centrais da reta final das eleições. A medida encerra o modelo que permite seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso, tema que mobilizou trabalhadores, sindicatos e movimentos sociais.
A campanha de Lula incorporou a proposta à sua comunicação eleitoral como parte da defesa dos direitos trabalhistas. O presidente procura relacionar a alteração da jornada à melhoria das condições de vida dos trabalhadores e à ampliação do tempo disponível para descanso e convivência familiar.
A discussão ganhou importância política também porque expôs diferenças entre as posições que os dois candidatos defenderam durante a tramitação da medida no Congresso Nacional.
O senador Flávio Bolsonaro inicialmente se posicionou contra o fim da escala 6×1 e defendeu uma discussão sobre formas alternativas de contratação, incluindo a remuneração por hora trabalhada. Com o avanço da proposta e a pressão pela aprovação, o parlamentar mudou sua posição e votou a favor da medida no Senado.
A votação registrou apenas um voto contrário, do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), que exerceu a Vice-Presidência da República durante o governo de Jair Bolsonaro.
A aprovação da mudança na jornada de trabalho levou o tema para o centro da disputa presidencial, principalmente diante das tentativas dos candidatos de conquistar o apoio dos trabalhadores.
Flávio Bolsonaro procura associar candidatura à mudança
Na propaganda do senador Flávio Bolsonaro, a palavra “Brasil” apareceu 29 vezes, seguida pelo nome do próprio candidato, com 22 registros. Lula surgiu em 18 ocasiões, resultado que também evidencia a presença de referências ao adversário no material eleitoral do PL.
A campanha procura apresentar Flávio como alternativa ao atual governo e atrair eleitores insatisfeitos com a situação econômica e com a administração federal. A expressão “O Brasil quer mudança” passou a orientar parte das mensagens do candidato, tanto nas inserções de rádio quanto nos discursos de campanha.
O senador também procura associar sua candidatura a questões que afetam o cotidiano da população, com destaque para o endividamento das famílias, a inflação e a violência urbana.
Integrantes da campanha avaliam que a exploração desses assuntos contribuiu para o desempenho de Flávio no primeiro turno. Por isso, a equipe decidiu preservar parte dessa abordagem nas semanas que antecedem a votação final.
Ao mesmo tempo, as 18 referências a Lula mostram que a comunicação do candidato do PL não se limita à apresentação de propostas. A campanha também utiliza a propaganda para criticar o presidente e responsabilizar sua administração por problemas enfrentados pela população.
Pesquisa Quaest mostra divisão do eleitorado
A decisão das campanhas de explorar a rejeição ao adversário ocorre em um cenário de polarização política. Na pesquisa Quaest divulgada em 14 de outubro, o medo de uma nova administração da família Bolsonaro e o receio da continuidade do governo Lula alcançaram o mesmo patamar, com 43% cada.
O resultado ajuda a compreender a centralidade das críticas mútuas nas peças eleitorais. Os dois candidatos procuram não apenas mobilizar seus apoiadores, mas também conquistar votos de pessoas que demonstram resistência ao projeto político adversário.
Para Lula, a comunicação busca reforçar a associação entre a candidatura de Flávio Bolsonaro e o legado político de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Para Flávio Bolsonaro, a prioridade consiste em transformar a insatisfação com o governo federal em apoio eleitoral, apresentando a substituição do presidente como resposta às dificuldades econômicas e sociais.
As duas estratégias também procuram alcançar eleitores que não votaram em nenhum dos candidatos no primeiro turno e podem influenciar o resultado da disputa presidencial.
Fonte: Brasil 247